Um teatro que
morre e dá razão à vida
(1: homem pelos 40 anos, no centro do palco. nu. sentado com as pernas dobradas)
1 Tá certo, então.
1 É esse então o espaço que me coube ocupar.
(preocupado)
...
1 Mas será que estou pronto?
1 Afinal, é finalmente a primeira vez!!!!
(vira-se de costas. faz como se estivesse se reclinando numa poltrona)
(aparece um homem 2 do seu lado direito. sorrateiro.)
2 - Hei.
1 - Que foi?
2 - Vem cá, você se acha pronto?
1 - Não sei. (acabrunhado). (faz-se super nervoso). No fundo, lá no fundo, ai, meu deus, sei lá o que me espera... (desesperado) Um espaço, só meu, só meu!!!! Ai, meu deus, é demais para mim!!!!
2 - Calma, meu, calma!!!
(desespera-se e chora)
1 - Não aguento mais tudo isso. Tanta tralha, tanta coisa a fazer, tantos sentimentos bloqueados, tão pouco tempo. (grita) Eu não posso morrer!!!!! (pára. calmo) Depois, sim, eu posso. Depois.
(o homem à direita permanece de pé, de costas)
(aparece outro homem pelo lado esquerdo)
2 - Você devia se envergonhar, isso sim.
(breve pausa, concentra-se. de repente, desesperado) 1 - Sim, eu sei!!!! Eu sei!!!!!
2 - Então, por que não simplesmente esquece? Deixa rolar. Você não merecia nada mesmo. (lento) Tudo é lucro. Tudo é lucro.
(reflete. repercute uma dor interna) 1 - Mas eu não consigo!!!! Sou uma corda puxada no espaço!!! Prestes a se romper. Prestes a quebrar a espinha. (pausa) Tá vendo meu olho???? (mostra) Olha. Ele não pára de se mexer. Contrações involuntárias dos músculos da face. Nervosismo puro. Puro!!!
2 - Você é muito idiota. (fica de pé, também de costas)
(assente) 1 - Sim, eu sei. Até isso eu sei.
(voz da platéia, por um homem 3)
3 - Que merda, hein?
(vira-se. os outros atores observam) 1 - Como?
3 - Que merda, eu disse.
(vira-se de frente, nu, tenta enxergar a plateia. faz que nada vê)
1 - O que você quer? Como assim, que merda??
3 - Que merda, isso aí, esse espetáculo todo, essa joça que você diz ser teatro.
1 - Peraí, eu não quis estar aqui!!!! Culpa o autor. Ou o diretor. Ambos. Culpa o produtor. O Teatro, sei lá. Eu não tenho nada com isso. Eu só tô falando o texto, não vê?
3 - Que texto, meu. Não tem nada a ver. Nada a dizer. Nada a fazer. Puta merda. Que que eu vim fazer aqui...
1 - Vai embora, então. Por que você fica? Deixa eu trabalhar, porra.
(pausa. o homem da plateia se levanta, falando em voz alta)
3 - Ah, não, você já me estragou a noite. Não vou deixar barato. Vou até aí. Você não reclama que não tem lugar? Vou te tirar daí, então. À merda. À merda todos vocês.
(o homem sai da plateia. sobe ao palco. a luz o ilumina. os outros atores se afastam)
3 - Pronto, fala.
1 - Falar o quê?
3 - Fala, então, o que o autor quer que você diga. Fala aí, vai. Só tem um negócio, fala algo de bom aí, algo que preste. Se não, vou te tirar daí na marra.
1 - Porra, meu, eu só repito o que querem que eu diga. Na real, não tenho nada com isso, não. Eu sou apenas um profissional.
3 - Não vem com essa. Fala, fala aí.
(o homem se esforça em falar com espostação, com qualidade. com medo)
1 - Hmmm. To be or not to be. (olha para o homem, com medo).
3 - Olha... Fala o que o autor te disse, não me enrola, não. Ou vou perder a paciência, hein. (arregaça as mangas)
1 - Tá bom. (pausa. faz esforço para lembrar onde parou) Ei, você disse: Você é um idiota. Vai, continua.
(o homem retoma o seu lugar) 2 - Você é um idiota. Não, tá errado. Você é MUITO idiota.
1 - Sim, eu sei. Até isso eu sei.
(pausa. o mesmo)
1 - Eu só queria pensar que MEREÇO estar em algum lugar. Qualquer lugar.
(o homem da plateia faz que não acredita no que vê) 3 - Puta merda. É isso??? É para ISSO que eu paguei 20 pilas???? Para esse babaca falar essa merda sem parar? Não acredito. Não acredito!!!!
(outro homem 4 fala da plateia) 4 - Ô, cara.
3 - Que foi?????
4 - Deixa o cara falar, vai. A peça pode até ser uma merda, mas deixa ele.
3 - Fica na sua, porra!!!!
(longa pausa. para si mesmo. luz focada nele) 3 - Tô cansado disso tudo. Eu ADORO teatro, mas não aguento mais isso. Tanta pretensão. Tanta grana desperdiçada com quem não tem nada a falar. E muita grana, muita!!! (pausa) Sabem quanto custa o fomento para o contribuinte??? 390 mil reais o projeto!!! 390 mil reais, tá certo, por dois, três anos!!! E olha só o que a gente vê por aqui!!! (mostra o primeiro ator) Um idiota, pelado, falando que (faz que zomba) não acha o seu lugar. (pausa) Ah, vai!!! Que é isso???
(longa pausa. todos permanecem parados olhando, de olhar vazio, para si mesmos. parece haver-se chegado a um impasse)
(o homem da plateia se levanta. ocupa o centro do palco e ensaia versos de um rap aparentemente improvisado. anima-se aos poucos)
(1: homem pelos 40 anos, no centro do palco. nu. sentado com as pernas dobradas)
1 Tá certo, então.
1 É esse então o espaço que me coube ocupar.
(preocupado)
...
1 Mas será que estou pronto?
1 Afinal, é finalmente a primeira vez!!!!
(vira-se de costas. faz como se estivesse se reclinando numa poltrona)
(aparece um homem 2 do seu lado direito. sorrateiro.)
2 - Hei.
1 - Que foi?
2 - Vem cá, você se acha pronto?
1 - Não sei. (acabrunhado). (faz-se super nervoso). No fundo, lá no fundo, ai, meu deus, sei lá o que me espera... (desesperado) Um espaço, só meu, só meu!!!! Ai, meu deus, é demais para mim!!!!
2 - Calma, meu, calma!!!
(desespera-se e chora)
1 - Não aguento mais tudo isso. Tanta tralha, tanta coisa a fazer, tantos sentimentos bloqueados, tão pouco tempo. (grita) Eu não posso morrer!!!!! (pára. calmo) Depois, sim, eu posso. Depois.
(o homem à direita permanece de pé, de costas)
(aparece outro homem pelo lado esquerdo)
2 - Você devia se envergonhar, isso sim.
(breve pausa, concentra-se. de repente, desesperado) 1 - Sim, eu sei!!!! Eu sei!!!!!
2 - Então, por que não simplesmente esquece? Deixa rolar. Você não merecia nada mesmo. (lento) Tudo é lucro. Tudo é lucro.
(reflete. repercute uma dor interna) 1 - Mas eu não consigo!!!! Sou uma corda puxada no espaço!!! Prestes a se romper. Prestes a quebrar a espinha. (pausa) Tá vendo meu olho???? (mostra) Olha. Ele não pára de se mexer. Contrações involuntárias dos músculos da face. Nervosismo puro. Puro!!!
2 - Você é muito idiota. (fica de pé, também de costas)
(assente) 1 - Sim, eu sei. Até isso eu sei.
(voz da platéia, por um homem 3)
3 - Que merda, hein?
(vira-se. os outros atores observam) 1 - Como?
3 - Que merda, eu disse.
(vira-se de frente, nu, tenta enxergar a plateia. faz que nada vê)
1 - O que você quer? Como assim, que merda??
3 - Que merda, isso aí, esse espetáculo todo, essa joça que você diz ser teatro.
1 - Peraí, eu não quis estar aqui!!!! Culpa o autor. Ou o diretor. Ambos. Culpa o produtor. O Teatro, sei lá. Eu não tenho nada com isso. Eu só tô falando o texto, não vê?
3 - Que texto, meu. Não tem nada a ver. Nada a dizer. Nada a fazer. Puta merda. Que que eu vim fazer aqui...
1 - Vai embora, então. Por que você fica? Deixa eu trabalhar, porra.
(pausa. o homem da plateia se levanta, falando em voz alta)
3 - Ah, não, você já me estragou a noite. Não vou deixar barato. Vou até aí. Você não reclama que não tem lugar? Vou te tirar daí, então. À merda. À merda todos vocês.
(o homem sai da plateia. sobe ao palco. a luz o ilumina. os outros atores se afastam)
3 - Pronto, fala.
1 - Falar o quê?
3 - Fala, então, o que o autor quer que você diga. Fala aí, vai. Só tem um negócio, fala algo de bom aí, algo que preste. Se não, vou te tirar daí na marra.
1 - Porra, meu, eu só repito o que querem que eu diga. Na real, não tenho nada com isso, não. Eu sou apenas um profissional.
3 - Não vem com essa. Fala, fala aí.
(o homem se esforça em falar com espostação, com qualidade. com medo)
1 - Hmmm. To be or not to be. (olha para o homem, com medo).
3 - Olha... Fala o que o autor te disse, não me enrola, não. Ou vou perder a paciência, hein. (arregaça as mangas)
1 - Tá bom. (pausa. faz esforço para lembrar onde parou) Ei, você disse: Você é um idiota. Vai, continua.
(o homem retoma o seu lugar) 2 - Você é um idiota. Não, tá errado. Você é MUITO idiota.
1 - Sim, eu sei. Até isso eu sei.
(pausa. o mesmo)
1 - Eu só queria pensar que MEREÇO estar em algum lugar. Qualquer lugar.
(o homem da plateia faz que não acredita no que vê) 3 - Puta merda. É isso??? É para ISSO que eu paguei 20 pilas???? Para esse babaca falar essa merda sem parar? Não acredito. Não acredito!!!!
(outro homem 4 fala da plateia) 4 - Ô, cara.
3 - Que foi?????
4 - Deixa o cara falar, vai. A peça pode até ser uma merda, mas deixa ele.
3 - Fica na sua, porra!!!!
(longa pausa. para si mesmo. luz focada nele) 3 - Tô cansado disso tudo. Eu ADORO teatro, mas não aguento mais isso. Tanta pretensão. Tanta grana desperdiçada com quem não tem nada a falar. E muita grana, muita!!! (pausa) Sabem quanto custa o fomento para o contribuinte??? 390 mil reais o projeto!!! 390 mil reais, tá certo, por dois, três anos!!! E olha só o que a gente vê por aqui!!! (mostra o primeiro ator) Um idiota, pelado, falando que (faz que zomba) não acha o seu lugar. (pausa) Ah, vai!!! Que é isso???
(longa pausa. todos permanecem parados olhando, de olhar vazio, para si mesmos. parece haver-se chegado a um impasse)
(o homem da plateia se levanta. ocupa o centro do palco e ensaia versos de um rap aparentemente improvisado. anima-se aos poucos)
3:
A verdade é que
A gente que
Ocupa isso aqui
Não tem mais nada pra dizer.
A verdade é que
A gente de lá
Tanto sofrimento tem
Que não tem como dizer.
Aqui desaba um prédio
Aqui explode outro
O povo explodeem raiva
E o poder não se comove.
(pausa)
A galera lá de longe
Topa sempre o desafio
De fazer uma mensagem
Da tristeza que o domina.
Lembro bem aquela noite
Tudo bem, gente bonita
Um e outro se batendo
Por uma nota aflita.
Ganhou o melhor da noite
E o aplauso foi geral
Mas depois que acabou
O esquecimento foi total.
(pausa)
Eu não.
(pausa)
Ficou em mim a admiração
De ver no outro aqui ao meu lado
A palavra que era minha
Tornar-se profecia.
(pausa)
Eles tão chegando...
Eles tão dominando...
Eles são humildes...
Eles têm talento...
(pausa)
Um dia eles aprendem.
Um dia eles convencem.
Um dia eles dominam
O palco que abominam.
Um dia a noite fecha
Um dia o cerco fecha
Um dia o circo fecha
Um dia o palco fecha
(pausa)
Pra virar uma grande festa.
(todos de pé de frente ao público. some a luz)
A verdade é que
A gente que
Ocupa isso aqui
Não tem mais nada pra dizer.
A verdade é que
A gente de lá
Tanto sofrimento tem
Que não tem como dizer.
Aqui desaba um prédio
Aqui explode outro
O povo explode
E
(pausa)
A galera lá de longe
Topa sempre o desafio
De fazer uma mensagem
Da tristeza que o domina.
Lembro bem aquela noite
Tudo bem, gente bonita
Um e outro se batendo
Por uma nota aflita.
Ganhou o melhor da noite
E o aplauso foi geral
Mas depois que acabou
O esquecimento foi total.
(pausa)
Eu não.
(pausa)
Ficou em mim a admiração
De ver no outro aqui ao meu lado
A palavra que era minha
Tornar-se profecia.
(pausa)
Eles tão chegando...
Eles tão dominando...
Eles são humildes...
Eles têm talento...
(pausa)
Um dia eles aprendem.
Um dia eles convencem.
Um dia eles dominam
O palco que abominam.
Um dia a noite fecha
Um dia o cerco fecha
Um dia o circo fecha
Um dia o palco fecha
(pausa)
Pra virar uma grande festa.
(todos de pé de frente ao público. some a luz)
Nenhum comentário:
Postar um comentário