sexta-feira, 24 de abril de 2015

Incontáveis pontos de tensão por debaixo da pele

Incontáveis pontos de tensão por debaixo da pele
Peça em um ato
Autoria: Rodrigo Contrera (rodrigo_contrera2@hotmail.com)

(homem comum, magro. por volta de 40 anos. nu. entra no palco pelo lado esquerdo da platéia (modelo: teatro viga, agora Ecal), como se saísse da platéia, mas não saindo realmente dela. ele poderia ser platéia, mas não é. voz em off, acompanhada em movimentos pelo homem)

aqui talvez eu possa ser.

(avança, suave, sem pose, sem cansaço, sem agitação qualquer. deita-se no meio do palco, à frente, com os pés para a platéia. pausa)

um espelho de água. flutuando. podendo afundar. tentando não afundar.

(tempo)

sondeio minhas carnes e nervos. sinto-os. apalpo-os com o pensamento. distingo-os, um a um, um a um, em busca de nós. nós, nudos, knots. nós, nosotros, we. eles, vocês, eu, nós criamos os nós.

(faz careta como "não, tá errado, não é isso")

viajando na maionese.

(relaxa o rosto e o corpo)

os nós. onde estão eles.

(abre os olhos. deixa-os fixos no teto)

incontáveis pontos de tensão por debaixo da pele.
incontáveis pontos de tensão por debaixo da pele.
aqui.
outro, aqui.
outro.
aqui.
aqui.
ligeiras tensões.
imperceptíveis ao olhar... humano.
em mim.
sinto-as.
sinto-as.
vocês...
... estão
... aqui.

(fecha os olhos)

será imaginação minha?
será mera imaginação?
será invenção?

(abre os olhos)

não, eles existem.
estão aí.
estão porque... estão.

(cena de Ronin?)
(fecha os olhos)

quase posso vê-los.
estão em mim.
e são meus.

(sorri)

é gostoso saber disso.
é objetivo.
realmente.
não há quaisquer dúvidas disso.
eu sei.
ninguém mais pode saber.
ninguém.

(abre os olhos)

disso, eu sempre me furto.
como se fosse frescura.
bobagem.
bullshit.

(começa a mexer-se, as pernas, de um lado para o outro, de forma alternada, brincando consigo mesmo)

nada.
isso sou eu.
é o que eu quero.
entender-me.
sentir-me.
apalpar-me.
vivenciar-me como se fosse uma igreja.
como se fosse um eu todo sagrado.

(começa a estirar-se, com força, uma perna após a outra, devagar, mas até o limite do estiramento. faz reais demonstrações de dor - e, como veremos, prazer)

- uhn!

(por volta de 10 s cada perna, diversas vezes, em momentos alternados, um "uhn" que realmente é de prazer)

(aparece um segurança no palco, que atravessa o local, olha o sujeito e entra numa porta ao fundo, o banheiro - isso tá marcado. o homem espanta-se com sua presença, o que transparece na voz em off e no rosto. mas mal se mexe. não treme, não faz qualquer outro movimento)

é alguém aqui.
que me vê.
que ao me ver me invade.
como sempre.
como sempre.
não.
não ligo.
não posso ligar.
o teatro é dela.
que me protege.
nada vai dizer.
nada irá dizer.
sou puro.
estou aqui.
inteiro.

(o segurança fala)

- você sempre vai vir sozinho?
- sim.
(o segurança faz que se afasta)
- o meu acordo com ela é esse. sempre aparecer sozinho.
- tá.
(o segurança vai ao banheiro. não sai (em nenhum momento da peça ele volta))

(o homem fecha os olhos. continua os movimentos)

quantas normas falsas.
quantas normas alheias.
quantas invasões.
estupros.
violências.
minhas.
dos outros.

(abre os olhos, sorri)

aqui, as normas são minhas.
norma nenhuma
a minha, em conluio...
com o universo.
mais é pedir...
menos.

(ao dizer "menos", faz movimentos mais rápidos, mais felizes. pára, de repente)

(passam-se sessenta segundos)

e agora, como faço para me levantar?
e agora, como faço?

(abre os olhos)

(faz menção de levantar as costas com o quadril)

isso, não.
violento demais.

(faz menção de rodar e apoiar as mãos no tablado)

isso, não.
forçado demais.

(repete os movimentos diversas vezes)

(desiste. fecha os olhos)

desisto.
esqueci.
não sei mais.
nem sei se quero saber.

(faz rosto de quem tenta se lembrar de alguma coisa)

ela havia me dito.
com calma.
suave, como um bebê.
com um rastejar nada incólume.
com um nada de esforço.
um nada.

(desiste novamente)

desisto.
sim.
desisto.

(passam-se muitos, sessenta segundos. o homem começa, aos poucos, a se mexer de um lado para o outro. de repente, cai de bruços)

gosto disso.
ficar assim.

(troca o rosto de lado)

assim.

(tempo)

o saco coça um pouco.
uhn.
meio chato.

(espaço para risadinhas da platéia)

(o homem força-se para o lado e de repente cai voltado novamente para cima)

uhn.
não.
coçar não vale.

(espaço para risadinhas)

(o homem repete o movimento acima duas ou três vezes. com o tempo, começa a fazer movimentos mais rápidos e violentos. com o movimento mais e mais agressivo, o homem vê-se obrigado a levantar os braços acima da cabeça, para finalmente rodar em si mesmo, sem parar, numa direção, com um movimento que se torna realmente agressivo, para si mesmo. sente-se que o homem luta para não fazer ruídos de dor e prazer. pára ao chegar ao mesmo lugar)

(as frases a seguir são ditas enquanto o homem se movimenta rapidamente. com a urgência dos movimentos, aumenta a ênfase naquilo que é dito)

avançar sem sair do lugar.
andar sem andar.
sair sem ir a nenhum lugar.
sem parar.
sem parar.
nada à frente.
nada atrás.
nada.
ninguém.
ninguém.
eu.
só eu.
o carpete.
o carpete.
um carpete.
humano.
um carpete.
humano.

nada em frente.
nada atrás.
nada aqui.
nada ali.

movo-me.
sem parar.
sem parar.
sem cessar.
em mim.
movo-me em mim.
sem sair do lugar.
sem ir a lugar.
nenhum lugar.

(o homem pára. as luzes movimentam-se de forma repetitiva, simulando a percepção dos olhos em movimentos repetitivos concêntricos. o som - a voz em off - acusa ecos, que desaparecem aos poucos)

(sente-se a respiração do homem. que engolfa o ar. que respira como, aparentemente, nunca antes fez)

ali.
o que é.
a entrada.
a saída.
ora.
a mesma coisa.
gente?

(faz que olha as pessoas. brinca com metalinguagem)

não.
estou sozinho.
né.

(sorri. espaço para risadinhas)

sozinho.
como numa peça.
num evento especial.
especial.
um homem encontrando a si mesmo.
nu.
pelado.
pica de fora.

(olha para o teto)

nada.

(aos poucos, o homem faz menção de querer se levantar. mantém uma perna dobrada, outra esticada, espalha-se com os braços, não querendo realmente se levantar, mas apenas avançar de forma suave à frente, em direção da platéia)

à frente.
à frente.
lá, à frente.
algo.
nada.
nada.
quero.
meu corpo.
quer.
ele quer.
ELE quer.
finalmente.
só ele quer.
só ele.

(o homem fica com os dois pés no chão, fazendo menção de que pode avançar, mas não avançando um passo sequer, apenas fingindo que avança, fazendo menção, não saindo um mero mm do lugar)

vou.
não vou.
fico.
não.
não fico.
vou.
vou.
vou?
não.
fico?
não.

(o homem fecha os olhos)

um pêndulo.
como aquele em paris.
como os relógios.
antigos.
como uma hipnose.
ih.
será que eu quero...
ficar maluco,
maluco?
como aquele menino
do filme?
lorenzo?
autista.
autista.
bill gates.
o billy em sua cadeira...
de velho,
de avô,
de avó,
para lá,
para cá.

(abre os olhos)

eu?
'magina.

(aponta um lugar inexistente (isto requer uma reflexão importante))

algo lá.
algo lá.
onde.
não lá.
não aqui.
não exatamente em meu interior.
definitivamente não fora dele.
não fora.
não dentro.
entre os eixos.
entre eixos.
como aqueles esportivos.
motor entre eixos.
veyron.
0 a 100 em 3 segundos.

(faz cara de insatisfação consigo mesmo)

entre eixos.
aqui?
(aponta o saco)
xi.
(sorri, como criança pega no ato)
(ri, como criança)

esquece.
quero.
quero.
ir.
ficar.
ninar.
dormir.
assim.
de pé.
como no ônibus.
ao ir pra faculdade.
ao ir pro centro.
achar emprego.
ver gente.
fingir.
ter emprego.
sim, ter emprego.
fingir.
como há anos.
no metrô.
fazendo cara de sério.

(fica soturno de repente. alivia o humor, de repente)

esquece.

(cai no tablado novamente. não levanta por vários segundos)

aqui eu páro.
não entro.
páro.
páro.

(som de mosquito. movimento brusco, afastando-o)

hi, lá vem.

(som mais forte)

sai.
sai.

(som do mosquito pára. repentinamente, o homem faz que se levanta, lento, caindo em posição de engatinhar, com os antebraços no chão. olha lugar algum)

e agora, essa?

(diz acima como que surpreso com a posição assumida, de engatinhar)

só faltava essa.
(rosto de estranheza)
só essa mesmo.

(pausa)

esquece.

(faz que tenta sentir a si mesmo na posição, aceitando o que seu corpo lhe dita)

(engatinha num e noutra direção, sem direção a seguir, indo e voltando, mas sempre avançando (ou seja, indo para a frente) pára, num ou noutro instante, sem se importar com o que faz, com o que vê, como o que sente. fica de repente de costas para a platéia, face à parede)

eu.
eu.
sou eu.
ESTE sou eu.
este mesmo.
sem tirar nem pôr.
este, que o corpo me dita.
este, que o corpo me diz.
este.
(olha para si mesmo)
este, que anda.
que se espalha.
que se sente.
como pode sentir-se.
como qualquer um pode sentir-se.
como qualquer um.
qualquer um.
um.
eu.
um.
nem um.
nem eu.
nenhum.
nenhum? (gesto de estranheza interna)

(desaba no chão, pernas abertas, braços abertos)

(as luzes se apagam)

(o homem reaparece, deitado ainda, pernas e braços abertos, mas agora com cueca e roupas a seu lado, espalhadas no tablado)

curioso.
não fiz praticamente nada, aqui.
espalhei-me enquanto me estirava.
rolei para lá e para cá.
balancei-me como um pêndulo.
engatinhei.
olhar de bobo.
ou de bebê, quem sabe.
e estou literalmente acabado.
mas não cansado.
daria para ficar horas, dias seguidos, assim.
para sempre mais ficar mais acabado.
mas nunca cansado.
seria uma espécie de revivência?
seria um renascimento?
um renascer verdadeiro?
um reviver?
por mais que me canse, mais me encontro.
não me canso.
me exulto.
enalteço.
pacifico.
inesgoto.

de repente,
(o homem se levanta, aos poucos, numa lentidão exasperante, até que, ao dizer a palavra seguinte, as luzes estouram e desaparecem, como no primeiro BIG BANG)
SOU.

FIM do Primeiro e Único Ato


(não há saudações à platéia. o homem desaparece. como compensação, o nome da peça, autor e ator aparecem, ao fundo, em arte a definir)

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