Como se não houvesse amanhã... (Um
começo anunciado)
Cenas mudas
De Rodrigo Contrera
De Rodrigo Contrera
Obs: A referência esquerda-direita é dada pela platéia. As notas dizem respeito a marcações de direção.
Ato 1
(Braxton, Anthony. Por Hildegard Kleeb, Faixa 1, CD 1)
(Braxton, Anthony. Por Hildegard Kleeb, Faixa 1, CD 1)
Cenário vazio.
A: Cenas sugeridas por imagens projetadas ou animações reais. Não podem ser objetos reais.
A: Cenas sugeridas por imagens projetadas ou animações reais. Não podem ser objetos reais.
- (A) Plantas – arbustos, pequenas
árvores e árvores maduras - crescem, esparsas, pelo palco. Surgidas de uma hora
para outra, do nada, simplesmente respondem aos ataques do piano 1.
1 Antes não há nada: é o piano, a música,
que faz as plantas aparecer.
- Em 0’22, à direita, surge homem de
terno e notebook na mão. O homem entra subrepticiamente, como se fosse um clown
que estivesse invadindo a cena, observado pela platéia. O homem entra com
cuidado, pisando na ponta dos pés, tentando não pisar as plantas tão logo elas
surgem, que continuam surgindo, sem parar.
- Em 1’20, mais ou menos, em uníssono com as notas graves, surgem (A) máquinas (tratores-tanques de guerra, com esteiras), sem avisar, com brutalidade e que, sem reparar em nada à frente delas, massacram tudo que se encontra à sua frente. Avançam sempre em linha reta, sem hesitar, como se estivessem se desempenhando numa guerra 2. Enquanto isso acontece, o homem de terno se esconde e até mesmo se protege mas não se espanta.
- Em 1’20, mais ou menos, em uníssono com as notas graves, surgem (A) máquinas (tratores-tanques de guerra, com esteiras), sem avisar, com brutalidade e que, sem reparar em nada à frente delas, massacram tudo que se encontra à sua frente. Avançam sempre em linha reta, sem hesitar, como se estivessem se desempenhando numa guerra 2. Enquanto isso acontece, o homem de terno se esconde e até mesmo se protege mas não se espanta.
2 Existem filmes
e animações que causam esse efeito, que precisa ser trabalhado com cuidado,
pois deve dar a idéia de algo excessivamente realista, como a realidade sendo
enxergada por quem a sofre ou sofre seus efeitos de invasão. Não é uma
realidade realista.
- Para se proteger/esconder/preservar ou para observar melhor a cena de brutalidade, o homem de terno encontra uma cadeira elevada 3, e sobe nela, para observar tudo de posição privilegiada. Posta-se, satisfeito (mas deixando alguma ambiguidade quanto ao seu lugar em relação às coisas que acontecem: há esperança).
- Para se proteger/esconder/preservar ou para observar melhor a cena de brutalidade, o homem de terno encontra uma cadeira elevada 3, e sobe nela, para observar tudo de posição privilegiada. Posta-se, satisfeito (mas deixando alguma ambiguidade quanto ao seu lugar em relação às coisas que acontecem: há esperança).
3 Como as de
juízes de partidas de tênis de quadra. O caráter de juízo é ressaltado pelo
tipo de cadeira, que isola mas coloca em posição de mando moral.
- Pouco antes de 3’20, surge fumaça no
palco 4, como se fosse smog. Com o surgimento desse novo fator, as
plantas decrescem de tamanho, fenecem e morrem com ela. Tudo ocorre de forma
paulatina, ao sabor da música, ao fundo.
4 A fumaça não
pode dar a idéia de gelo-seco, mas de fumaça mesmo, que surgiria de fogueira ou
da combustão de motores: é a representação o máximo possível realista da fumaça
de queima.
- Aparece, em 3’37, um garoto, vestido
com bermuda escolar, do lado oposto ao homem, que aponta em direção a ele,
sendo que este finge que o gesto não se dirige a ele 5. Com a
recusa, o garoto, que aparenta muito nervosismo, e que busca anuência da
platéia àquilo que acontece, fica inconformado.
5 O gesto de apontar
remete a uma certa culpa ou co-responsabilidade, que precisa permanecer patente
mas também ambígua.
- Ambos, garoto e homem, observam, em
4’42, um pequeno barquinho rumando de lado a lado do palco. Observam em 5’10
uma outra coisa, um pequeno pneu, parar em 5’20, parar, parar, parar. Garoto
tenta empurrar o pneuzinho. Não consegue. Homem digita como que tentando que o
pneuzinho continue. Não consegue. Em 6’10, o barquinho avança por conta própria.
O homem e o garoto sentem extremo alívio com isso.
Ato 2
(Braxton, Anthony. Por
Hildegard Kleeb, Faixa 2, CD 1)
Cenário vazio. É ideal que a cena seja
vista de cima. Num palco comum, o efeito pode ser alcançado colocando espelhos
no teto, virados de forma a que a platéia consiga enxergar as pessoas do palco
pelo lado de cima.
Obs: Mote: as pessoas em geral preferem
não pensar por si só (em resumo, “pensamentos únicos, filas”).
- Muitas pessoas no palco, todas em pé, dirigindo-se ao mesmo lado do palco (direito). Tantas pessoas quanto o palco puder agüentar. As pessoas permanecem em grupos, dirigindo-se em função do líder, que é líder apenas por colocar-se à frente das outras. Os movimentos, para todos os lados, não obriga as pessoas a mudarem de posição.
- Muitas pessoas no palco, todas em pé, dirigindo-se ao mesmo lado do palco (direito). Tantas pessoas quanto o palco puder agüentar. As pessoas permanecem em grupos, dirigindo-se em função do líder, que é líder apenas por colocar-se à frente das outras. Os movimentos, para todos os lados, não obriga as pessoas a mudarem de posição.
- Ocorre uma pequena diminuição das pessoas,
que saem inadvertidamnte. Com a saída delas, os grupos mantêm-se unidos, mas
com maior espaçamento entre os indivíduos. Não há mudança perceptível na
direção dos grupos.
- Saem mais pessoas. Alguns indivíduos
afastam-se dos grupos e passam a formar novos grupos, com os membros restantes.
Esses grupos tornam-se mais agressivos, buscando tomar espaço dos outros
grupos. Os grupos transformam-se aos poucos em filas, arduamente criadas
(ninguém quer permanecer no fim da fila).
- Aos poucos, somem mais e mais
indivíduos, fazendo com que a fila deixe de fazer sentido. Os indivíduos
distantes ficam perdidos, sem saber o que fazer, sem saber para que lado se
dirigirem.
- Entram muitos outros indivíduos, como
no começo. Os indivíduos que restavam são incorporados a novos grupos, que não
mudam de direção e que praticamente não conseguem se mexer.
- A
seqüência é repetida.
(Nick Cave and the Bad Seeds, The boatman’s call)
Ato 3
Idiot
prayer
- duas pessoas isoladas, uma de cada lado do palco. não se vêem, não se tocam, não se reparam, e sofrem com solidão. mexem-se como se fossem animais, coçando-se, enfiando os dedos nos narizes, nas partes íntimas, como se fossem macacos
- duas pessoas isoladas, uma de cada lado do palco. não se vêem, não se tocam, não se reparam, e sofrem com solidão. mexem-se como se fossem animais, coçando-se, enfiando os dedos nos narizes, nas partes íntimas, como se fossem macacos
Ato
4
Into
my arms
- palco dominado por tecidos que
dificultam e amortecem o andar; o palco inclui a platéia.
- duas pessoas que se agasalham, que querem se agasalhar, ao longe
- duas pessoas que se agasalham, que querem se agasalhar, ao longe
Ato
5
People
ain't no good
- palco: homens e mulheres reunidos(as)
que falam mal do sujeito que se aproxima e que se afasta, em situação que se
repete várias vezes
Ato
6
There
is a kingdom
Condição
(tecnologia): pigmentos fosforescentes que só aparecem se submetidos a luz
direta; os pigmentos devem, preferencialmente, mudar de cores frias para cores
quentes.
- homens e mulheres andam todos em uma
direção, inexpressivos, maquinais, vestidos de muitas formas.
- homem com lanterna anda em sentido
contrário e oposto aos homens e mulheres.
- a partir de certo ponto, as luzes se
apagam.
- o homem acende a lanterna e aparecem,
em todos os homens e mulheres, corações fosforescentes que mudam de cor.
Fim
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