quarta-feira, 29 de julho de 2015

Cenas mudas (Um interlúdio e diversos intercursos) – Ato único – Rodrigo Contrera

(Proposta de encenação: Atores com máscaras de animais extintos: ilustração abaixo. Indicação válida para todos os diálogos menos o monólogo intermediário, que deverá ser lido por um homem de salto alto, paletó e gravata e chapéu côco. Nos diálogos dos animais, os bichos escolhidos precisam ser improváveis: cervo conversando com rinoceronte, passarinho com mamífero aquático, etc.)


ATO ÚNICO

- as narrativas tradicionais estão esgotadas.
- as alternativas também.
- ninguém parece dizer nada com nada.
- e quando querem dizer, dizem tipo assim: ah, as coisas, meu deus, que drama.
- o pessoal não gosta muito de ver isso.
- é chato ter que levar dever de casa para a cama.
- só os pseudointelectuais babacas parecem gostar.
- nem eles.

- mãe, me leva ao teatro?
- para ver o quê, minha filha?
- ah, sei lá, um palhaço.
- para quê, lindinha?
- ele parece ser mau, sabe, mãezinha. tipo o lobo mau.

- até as crianças não aguentam mais.
- sabem mais que a gente.
- devem até se dar melhor na cama que nós.
- será? (espanto)
- bom, cama mesmo é que não, porque quando transam é nos elevadores.
- ou nos corredores entre os andares.
- onde não tem câmeras.

- a vanessa blue é foda.
- prefiro a sasha grey.
- adoro as tetas da sara jay.
- eu gosto da eva angelina.
- sabe que ela prefere engolir porque fica todo sujo e ela não gosta de ter o trabalho de limpar?
- que gracinha! (todos).

- o lobão só pode ter pirado.
- deixou de fazer música; agora, só manifesto.
- contra o quê?
- ah, algo sobre a terra do nunca.
- alice no país das maravilhas?
- um manifesto do nada.
- puta merda, o cara pirou mesmo.
- enquanto isso, aquele sujeito feioso tá com a bola toda.
- aquele que rima com filé?
- é. o cara foda do eixo.
- ah.

- porra, meu, preciso ter uma mensagem.
- manda um whats.
- vou gravar uns negócios, transcrever e concorrer àquele concurso.
- você não escreve muito fácil, é isso?
- não, é que aí pago somente a transcrição.
- ah.

- o sujeito é uma gracinha.
- mas feio...
- só se alimenta mal.
- então come mal.
- dizem que não.
- como assim?
- ele parece bom de língua. dizem.
- aí é bom.
- isso é coisa de boiola.
- gosto mesmo é de ser enrabada.
- eu gosto mais é de rabada.
- vamos dividir?

- gostei quando ela pagou peitinho.
- os biquinhos dela são pequenininhos.
- uma graça.
- mas os peitões.
- tesão.
- pô, não fala assim.
- ah, vai, ela bem que gosta.
- você nem sabe.
- eu queria mesmo um boquete.
- aquela boca... (todos)

(Monólogo)
Em política, quando alguém começa a te convencer de alguma coisa, é perigoso. Pois com isso esse alguém tende a facilitar o TEU entendimento de coisas que dizem respeito A ELE. Ou seja, essa pessoa começa a controlar a conversa.
Para saber o que você mesmo pensa, é preciso a toda hora reparar em que direção vai teu pensamento. Ele realmente privilegia as questões mais importantes para você?
Por exemplo: liberdade ou igualdade? Mérito ou procedimento? Lei ou eficiência? Sempre que esses temas entram em debate, tendem a opor umas pessoas às outras, ou a aproximar pessoas que estavam distantes.
Não se deixe iludir por discussões ideológicas. Todos são grupos que querem poder.
(tempo)
Uma gestão desgastada e gastadora está em busca de apoio, mas ele começa a escassear por parte de quem irá pagar a conta.
As irregularidades se espraiam pelo noticiário. Os apoiadores da gestão começam a perder a fala. Não convence transformar mais em complô algo que segue os rumos do sistema. Não convence mais demonizar os chatos por serem como são. Resta discutir o assunto. E muitos não querem por simplesmente temerem o pior - a entrega do butim a quem menos apreciam.

Desde os 90, as instituições têm sido motivadas a funcionar. Hoje, embora não do jeito desejado, essas instituições parecem começar a fazer jus ao nome. Daí que quem tenta esconder a cabeça embaixo do chão começa a perder o fôlego.
(tempo)
Meus ideais – sou o autor da peça – nunca mudaram. Mas certas questões que me incomodavam começam a adquirir nome. E a deixar de serem incômodos para se tornarem indignação.
Esta peça foi feita num momento histórico bem preciso. Poderão dizer que sendo encenada depois, terá perdido o timing. Afinal, ninguém sabe o que irá acontecer.
Mas é mentira. Porque sabemos que tudo será o mesmo.
Enquanto isso, a vida continua.
(Fim do monólogo)

- dá um beck?
- a coisa é assim.
- ah, tudo isso?
- se facilita, fica difícil.
- eu tô na merda.
- eu também.
- tá, só meio, então.
- tá.

- ontem não consegui tomar banho.
- falta d’água?
- excesso de conta.
- nem notei.

- o filho dela foi ao ISIS.
- e daí?
- tá se dando bem.
- é?
- virou case de marketing.
- um dia dá aula em Harvard.
- pelo menos tem culhões.
- quem sabe.

- ela não me ama.
- ninguém ama ninguém.
- “eu vou me matar!”, era minha fala.
- e tinha algo a ver?
- eu já havia tentado.
- não conseguiu?
- não passou o carro certo.
- que carro era?
- ah, um desses aí, modelo novo.
- ah.
- um dia pulo. (tempo) cansa esperar.
- tá.
- divide comigo (uma bituca)?

- tenho matérias, com fontes, documentos e tudo.
- e o que falta?
- onde publicar.
- mas por quê?
- todo mundo pensa igual.
- sei.
- e ninguém tem culhão.
- coloca num blog e esquece.
- para levar uma ação e ter que vender meu apê? nem fodendo.
- vai pro exterior então.
- para quê?
- ganha uma bolsa qualquer e na volta lança como trabalho de conclusão.
- deve funcionar.

- elas tão dando em cima.
- quem?
- aquela que já é avó.
- sei.
- tem uma bela bunda.
- entendo.
- e a outra.
- a garota?
- é, aquela que fica zangada por qualquer coisa.
- e você?
- só quero umas rapidinhas.
- qual o problema?
- são evangélicas.
- ah, vai.
- elas até fazem, mas depois, lá vem a pregação.
- aí é um saco.

- querem falar do benjamin.
- de novo?
- e do bauman.
- saco!
- e do agamben.
- puta merda.
- eu queria fazer contas.
- faz marketing político.
- pode ser. gosto de me perder nos números.
- e os outros são maiores.
- é.

- lincharam o cara.
- outro fingiu-se de morto.
- também se fodeu.
- outro conseguiu.
- disse que nunca mais.
- nunca mais, seria legal tudo isso.
- será? (para a plateia)

- o kraus apanhava na rua tão logo publicava seu jornal.
- o craig era um louco. queria marionetes.
- mas dizem que era um precursor.
- de quê, não sei.
- e o francês louco?
- nunca conseguiu tornar suas ideias algo real.
- isso é ser precursor de algo?
- só se for do próprio fracasso.
- ah, vai!
- cansado de ídolos.
- prefiro dar o meu dízimo.

(tempo longo)

- o que o sr. quer?
- o fim das maracutaias.
- e quem é o sr, afinal?
- ninguém.
- entendo.

(off)
Monte a sua máfia – versão 2015.
Faça assim. Tenha amigos. Que eles sejam os melhores. Mas que sejam seus amigos.
Controle as regras. Seja rígido. Leia sobre ética. Argumente bem. Vença as discussões. Tenha uma ironia na ponta dos lábios.
Crie concursos. Escolha os amigos. Escolha outros para as vagas restantes. Fique amigo deles.
Viva discretamente. Controle os impulsos. Faça tudo no interior de sua casa. Nada fora. Seja recatado.
Adote um nome charmoso.
E o mais importante: seja bastante criterioso nas suas amizades.

(trilha final: Fábio Caramuru, Moods Reflection Moods, 3ª faixa)


FIM