sexta-feira, 24 de abril de 2015

A tia

(Toda a cena se dá com Prima falando ao telefone fixo ou ao telefone celular. A empregada entra de vez em quando e dialoga com ela sobre assuntos prosaicos)

(Prima deitada na cama. Olha para o teto. Pega um livro, folheia, abandona-o, volta a olhar para o teto)

- Julia, traz uma laranja, vai.

- Tá certo, patroa.

- (pega o telefone) Oi, Márcia! E aí, como estão as coisas? Não, e você? Eu não ligo muito para isso. Sou inteligente o suficiente para passar sem isso. Não, não comprei aqueles livrinhos. Eu já conheço as histórias deles de cor. Não preciso. Sei, o Carlos também dizia que não precisava e se ferrou. Tudo bem, mas ele é ele, eu sou eu, você bem sabe disso. Não, não pretendo sair hoje. Preciso pensar na viagem. Sim, lá pro Brasil. É, aquele país é uma verdadeira potência. Tanto a aprender, né. Quando estava em Londres eles falavam a toda hora do país da era Lula. Claro, hoje é outro presidente, presidenta, a tal de Dilma. Sim, mas mesmo assim. Meu, eles são a sexta economia do mundo! Isso, sim, é país. Não, não tenho como pagar os hotéis, confesso. Mas vou dar um jeito. Tenho de dar um jeito. Não posso perder essa oportunidade por nada do mundo. Nada!! Ah, tá, você vai sair, tudo bem. Dá uns beijos na galera toda. Chau.

- (fala sozinha) E agora, como faço? Nem raspando o tacho consigo arranjar uma saída para me sustentar por lá. Aqui, tudo bem. Meu paizinho sempre vai me dar a maior força. Não precisarei me preocupar. Mas lá? (tempo) Claro que sim, eu me lembro, minha mãe de vez em quando se referia aos meus primos lá em São Paulo. Como eles foram corajosos de embarcar sem nada e fazer a vida naquela imensidão que o André me disse que conheceu. Mas eu nunca mandei sequer uma carta. Nunca, nunca nem me lembrei. Será que eles iriam ligar se eu, de repente, aparecesse lá na casa deles? Ah, uma cama simples eles devem ter, todo mundo tem um colchão, né. Eu não me preocuparia. Se bem que se fosse mais que um colchão não seria nada ruim. Uma caminha. Um quarto sozinha. Pois meus primos já saíram da casa de minha tia, não é? O Rodrigo mora sozinho, o Felipe mora longe, em Belém, a Ximena também. Lá tem um quarto, eu sei. Preciso desse quarto só para mim. Preciso.

- Senhora, falou com a sua mãe?

- Sobre o quê?

- (constrangida) Sobre o dinheiro.

- Que dinheiro?

- Senhora, eu não vivo do ar. Eu preciso do dinheiro.

- Ah, tá. (mexe no celular) Peraí.

- Claudia, oi, como você tá? Vem cá, você sabe quanto custa ligar lá para o Brasil? Digamos, o minuto? Não quero abusar, sabe, preciso falar com minha tia lá em São Paulo, mas meu pai me mata se eu gastar muito na ligação. Ah, você não sabe? Entendo. Tá certo. E aí, como vai a vida? E o namoradinho, em Vancouver? Ele tá bem? Ah, tá. Ele volta logo? Sei, interessante. Ele quer ficar mais por lá, não é mesmo? Pegar experiência. Legal, isso é sempre bom. Os canadenses são uma graça. Eu sei disso porque conheci uns lá em Londres que, meu, tinham um jeito todo especial, sabe. Tá, vou ver como fazer, chau!

- (mexe na internet) E agora, como faço? Será que simplesmente com colocar o nome e sobrenome dos meus primos os emails podem chegar a algum lugar? Acho que não. Não deve ser tão simples. Ah, lembro, quem sabe o Pancho saiba o email do Rodrigo, que os visitou da última vez que veio. Vou ligar para ele.

- (liga) Oi, tia, tudo bem? Não, tá tudo certo. Me aprontando para a viagem. Por que viajar? Ora, tia, para pegar experiência, né. Ninguém valoriza ninguém lá no hemisfério Norte que não tenha tido experiências por lá mesmo. Ah, a senhora bem sabe disso, não é possível. Então. Não, tá tudo bem. Veja, tia, o Pancho tá aí? É que preciso falar com ele. Não, nada de urgente. Ah, ele saiu. Sei. Volta logo? Não sabe? Ah, entendo. Ele deve estar lá na rede de tv, né. Sei. Deve demorar. Meu, ele não pára de trabalhar. Sim, ele precisa. Não, é que realmente a situação dele deve ser diferente. Ele nunca viajou lá para fora, né. Nunca. Entendo. Faltava grana. Ah, sei. (faz que não é com ela). Não, tudo bem, eu ligo depois. Bye.

- Puta, e agora? Tenho apenas dois dias, agora. Não tenho a menor ideia de como fazer. Será que tem albergues lá no Brasil? Ah, devem ter albergues. Ah, mas meu, me misturar a gente de todo tipo eu não gosto, não. Lá no norte era diferente, todo mundo bem legal, gente de família, né. Não quero me misturar. Não quero.


- Não posso.

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