sexta-feira, 24 de abril de 2015

Onde você estava? (Fugindo)

(1: Contrera)
(2: um periquito. se possível, real (empalhado ou não). verde com trechos amarelos e pretos, como o periquito real)
(3: voz de Gerald Thomas, em off. precisa ser igual (dele) ou muito similar)
(Autoria: Rodrigo Contrera)

1
os caras me roubaram o 11 de setembro.
hoje todo mundo lembra das torres. eu me lembro das bombas, lá no chile. disso, ninguém lembra.
mas lembram do pinochet.
2
que é que você tava fazendo quando as torres caíram?
1
dormindo. eu tava desempregado. liguei a tv, vi aquele negócio em chamas, veio um avião, bateu, ninguém falava nada, de repente, o negócio tremeu e caiu.
desculpem (desculpa, gerald), mas eu preciso falar. eu ri. não sei por quê. (abaixa a cabeça. pausa)
e você?
2
eu sou apenas um periquito. não tá vendo?
1
ah, tá.(pausa)
então. aí, um dia, todo preocupado com as coisas do mundo, eu fiz um trabalho imenso. só a introdução tinha 30 páginas. era sobre apropriação de discursos. roubo.
entreguei pro professor, que me deu uma nota alta para caralho, fui ver o que ele havia escrito. tinham me roubado o trabalho.
2
sei. uma pena.
1
isso.
uma pena (cara de bobo).
2
mas, posso te perguntar um negócio?
1
uhn.
2
onde é que cê tava quando o ayrton senna morreu?
1
eu tava assistindo a um campeonado de karatê. de repente, eu fico sabendo da batida. dava para ver que tinha algo errado. e olha que ninguém falou nada na hora.
eu não gostava lá muito do senna (oh! que sacrilégio! o pessoal diz hoje).
mas foi difícil para todo mundo agüentar.
(sinal de t, de tempo)
vocês não lembram quanta piada surgiu logo em seguida? pois é. eram anticorpos. é verdade.(pausa)
que é que vc tá olhando?
2
nada, eu já disse que sou apenas um periquito.
1
ah.
(pausa)
quando eu comecei a entrar realmente na merda, fiquei sabendo de um garoto que se meteu com a guerrilha armada. o apelido dele era massa. olha só.
li, pesquisei, entrei em contato com algumas pessoas, fiz um texto. apresentei num concurso e não ganhei nada. tudo bem. eu não queria ganhar. queria que se lembrassem.
mas eles lembram da yara, do lamarca, marighella, um monte de gente legal. é gente legal mesmo. mas eles são gente importante, não é mesmo? queria que eles se lembrassem dos ninguém.
não se lembram do bacuri. bacuri, quem? não se lembram do massafumi. massafumi, quem?
eu lembro.
e olha que nem conheci o cara, hein? (gargalha)
3 (gerald, em off)
contrera, do que é que você foge?
1
não sei, gerald, não sei. mas o que vc achou daquele meu texto?
3 (off)
lindo, querido.
1
isso já não basta?
3 (off)
não, querido, não basta.
preciso sair. te ligo.
LOVE
G
1
(respira)
uma vez, fui num fran's e encontrei um ex-colega de faculdade.
ele me disse: e o pinochet, contrera?
quis mandar ele à merda. não mandei.
hoje, o cara trabalha no governo lula, fazendo clipping. encontrei ele há uns dois meses. o cara começou a fazer marketing do governo na minha cara! pedi pra ele parar. ele parou.
pelo menos o cara tava meio acabadão. eu, não. ói minha barriga. durinha, durinha.
2
posso perguntar um negócio?
1
fala.
2
onde é que você tava quando rolou a primeira guerra no Iraque, em 92?
1
eu tava num hotel no interior de são paulo, a serviço. trabalhava numa revista de assuntos rurais.
é chato, mas tenho que admitir. eu tava batendo uma punheta.
2
você não sabia o que tava acontecendo?
1
que é você queria que eu fizesse?eu ainda morava com meus pais. tinha que aproveitar a deixa. a história? ora.
já que você falou nisso: e eu lá alguma vez fiz parte da história? claro! pra levar na bunda. ora. no chile? no brasil? sorry.
3 (off)
contrera, você me decepciona.
1
desculpa, gerald, mas eu falo a verdade. é disso que vc gosta, não é?
3 (off)
é.
1
alguém aí na platéia já ouviu uma bomba? uma bomba real.
não?
pois é. eu consegui reproduzir o som de uma, sabiam? é verdade. num baixo elétrico.
claro, o resultado não é bem um som. mas vai tar na minha peça.
2
ei, ei.
1
que foi?
2
mas ninguém liga pra isso.
a história já se foi. quem morreu, morreu, e quem não morreu, se fudeu.
1
mas eu ainda tou vivo.entendeu?
2
posso perguntar mais uma coisa?
1
claro.
2
onde é que você estava quando estouraram aquelas bombas em Londres e Madri?
1
não tenho a menor idéia. (pausa)
mas eu lembro onde eu estava quando mataram aquele brasileiro lá no metrô de londres.
eu tava viajando, com a cris, no interior de são paulo.
comprei o jornal, abaixei a cabeça, chorei um pouquinho e fui em frente.
2
sei.
1
eu queria chorar por todos mas não tenho tanta lágrima assim, não. eu já não agüento nem comigo.
e se eu ficar por aí chorando à toa vão falar que eu sou boiola.
1 (baixo)
era isso que diziam na minha infância.
que eu chorava porque era mariquinhas.
que eu nâo agüentava.
3 (off)
deixa disso, contrera.
1
queria poder. mas não consigo.
1 (de costas) (off) (a luz abrange a platéia e todos os atores)
não estou só. eles choram. eu também. mas agora eles se calam, e olham em outras direções. eles pegam os celulares, enxugam as lágrimas, e se afastam. tem alguém aí? teve alguém aí? não sei.
não estou só. eles me olham atentos. querem algo em mim. querem algo que não sei se posso dar. eu fico nervoso e provoco. eles reajem e me chamam de escroto. mas alguns tentam, e eu também tento. com esses, o vai e vem se repete. com eles, não estou só.
queria vê-los à minha frente, todos, nus, todas, nuas. mas não posso. eu mesmo não estou nu. por isso, vejo-os lacrimejar, se mexer, ansiosos. esperam que eu diga algo. mas no fundo não quero. quero-os apenas aqui. comigo. queria, como se fosse eterno, deitar-me neles. colocar-me em seus braços, que me carregassem, que carregassem minhas dores e minhas culpas. mas não posso. sou apenas um homem. um homem que se deixa afetar, como eles, um homem que se deixa enganar, como eles, um homem que engana e que mente, como eles.
por isso, me afasto. como eles.

2

Fugindo eu consigo entrar e sair e sair e entrar. Fugindo eu posso ficar. Fugindo eu posso ir embora. Quem foge não precisa ser aceito. Quem foge pode tudo. Os escravos fugiam em direção ao litoral. Quem não podia ficava no caminho e fazia seu quilombo. Quem foge não pede remorsos. Quem foge olha pra frente. Quem teme olha pra trás. Quem foge fala manso. Quem foge bate forte. Eu fujo porque não tenho mais nada a perder. E sempre ganho porque só me resta fugir. O homem é livre e vive preso, diz Rousseau. Estou preso e vivo livre, digo eu. Preso a mim mesmo, de quem não consigo fugir.
Fico no palco para fugir da platéia. Fico no palco sem ser ator. Fico no palco e fico lá fora. Vocês me vêem agora e nunca mais. Pois quando me canso saio fora. E quando vou embora não digo adeus. E quando volto não digo: ói eu aqui, esperando um abraço. Eu vou e volto. E como posso tudo sentem que fico. E como posso tudo sentem que vou. Um dia eu vou, para sempre. Fujo sem parar adiantando esse dia, quem sabe. Fujo sem parar para morrer e ressuscitar, quem sabe. Fujo quando calo, quando falo, quando olho, quando viro o olhar. (pausa longa) Só queria mesmo um amigo.
Mas os amigos aparecem quando eu fujo. Porque eu fujo de mim. E todo mundo foge. Todo mundo aceita quem não consegue fugir de si mesmo.

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