sexta-feira, 24 de abril de 2015

Essa incontornável ditadura das coisas

Essa incontornável ditadura das coisas
Rodrigo Contrera

(off de narrador)

Vão, vão lá fora.
Lá fora.
Lá, na rua.
Na rua.
Vão lá fora.

O que vocês vêem?
Gente.
Sempre tem gente.
Andando.
Indo de um lado para o outro.
Carregando sacolas.
Pastas, às vezes.
Algumas não carregam nada.
É chique não carregar nada.
Dizem que é chique.
É o que dizem.

Lá fora, o mundo não pára.
(entra homem)
Não como aqui dentro.
Aqui nós vivemos o mundo do teatro.
Um mundo de arte.
Um mundo de eternidade e beleza.
Um mundo para poucos.
Lá fora, não.
Lá fora está o mundo real.
(pausa)
Ai, que meda.
(pausa)

Vim aqui falar das coisas.
Dessas coisas que nos rodeiam aqui e lá fora.
Essas coisas que fazem a nossa vida.

(homem brinca com carro de brinquedo)

Estávamos ela e eu lá fora.
Ela dirigia.
Ela queria ver carros.
Carros de luxo.
Fomos.
Só para olhar.

(pausa)

Abrimos portas.
Fechamos portas.
Sentamos.
"Não obrigado, a gente só tá olhando".
Sim.
Tocamos.
Mais importante ainda, cheiramos.
Cheiro de carro novo.
Aquele que vendem por aí.
Cheiro de cigarro, às vezes.
(pausa)
Esporte cansativo, esse.
Abrir e fechar portas.
Sentar.
Sair.

(pausa)

Enquanto isso, as pessoas continuavam na rua.
Andando sem parar.
Uma lá, outra ali.

(pausa)

Fomos de um lado a outro daquela avenida.
Nações Unidas.
Naquele calor insuportável.
Entrando e saindo de portas.
Abrindo e fechando portas.
Cheirando.

(pausa)

Voltamos para casa.
Ela, satisfeita.
Eu, com dor.
No coração.

(pausa)

Idiota, né?
Eram só carros.
Automóveis de luxo.
Coisas.
Coisas que no fundo só fazem ir e vir.
Com gente lá dentro.
Coisas que só faltam falar.
Avisam.
Preparam.
Planejam.
Coisas feitas para andar.
De um lado para o outro.
Deixando o mundo real do lado de fora.
(pausa)
O calor.
Insuportável.
Os cheiros.
Os bafos da vida real.
Coisas, então.
Coisas feitas para separar.
Você dos outros.
Você desses todos que andam.

(pausa)

Que andam de lá para cá.
Que correm para pegar seus ônibus.
Correm da vida.
Correm por suas vidas.

(grande pausa)

Vocês costumam reparar nas pessoas da rua?
Nesses que passam lá suas vidas?

(pausa)

Pois então.
Reparem.
(pausa)
Eles também não páram.
Precisam se manter em movimento.
Esticar as pernas.
Parar, nunca.
Jamais.
(pausa)
(fala para si, tirando sarro)
Perder, nunca.
Render-se, jamais.

(pausa longa)

Consulto meu coração.
Sei lá o que me acontece.
Não sei mais nada.

(pausa)

Serei eu mais um daqueles que não páram?
Serei eu um deles?
Desses que fazem o sinal?
E que os ônibus deixam para trás?

(pausa)

Vão.
Vão lá fora.
Vejam lá.
Quem sabe lá esteja eu.
E não aqui.
No teatro.
Onde tudo é bonito.
Onde tudo é singelo.
Onde tudo são palavras.
Meras palavras.
(pausa)
O que podem as palavras com o calor?
Com esse calor que mata?
Com a dor?
O que podem as palavras com a dor?
(pausa)

Nada.

Nada, meus queridos, nada.

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