... mas tudo foi apenas um sonho
Autor:
Rodrigo Contrera
Direção:
Rodrigo Contrera
Elenco:
Rafael Fabrício, Rodrigo Contrera e outros
Dois
homens. Sentados da seguinte forma: um deles numa cadeira, de costas para a
platéia. O outro homem numa outra cadeira, do lado esquerdo do primeiro homem, de
frente para a platéia. Relativamente próximos um do outro. Tom de voz sempre
intimista.
Música: Keith Jarrett, Book of ways, ECM 1344/45 831 396-2, CD2, 1ª
música. Até 0’31, abaixando
gradualmente, até ficar de background.
Homem
de costas: 1
Homem
de frente: 2
2:
Agora você pode falar.
(pausa
breve)
2:
Você ouviu o que eu disse?
(pausa
um pouco mais longa)
2:
Tudo bem. Fale quando quiser. Eu estarei aqui. Por todo o tempo do mundo.
(pausa
longa)
2:
Passaram-se vários anos, não é?
(pausa)
2: Mais
de vinte.
(pausa)
2: O
tempo passa num instante.
(pausa
um pouco mais longa)
2:
Entendo que não queira falar.
(pausa)
2: É
normal.
(pausa)
2: O
tempo amortece as feridas.
(pausa
longa)
2:
Mas elas ficam.
(pausa)
2:
Por isso estou aqui.
(pausa)
2:
Para ajudá-lo a sanar as feridas que ficaram.
(pausa)
2:
Todos precisam virar a página.
(pausa
mais longa)
2: É
por isso que estou aqui.
(pausa)
2:
Para ajudá-lo.
(pausa
mais longa)
2:
Você entende?
(pausa
longa)
1:
Não há mais nada a dizer.
(pausa)
1:
Eles venceram. Eu perdi. Só isso.
(pausa)
1:
Além do que ninguém mais se lembra.
(de
leve, 2 faz que não)
(pausa)
1:
De que adianta trazer o passado de volta?
(pausa um pouco mais longa)
2: Eu
só vim porque você quis.
(pausa)
1:
Eu não te chamei.
(pausa)
2:
Chamou, sim. Só não se lembra.
(pausa
mais longa)
1:
Não quero mais lembrar.
(pausa)
2:
Pode até ser. Mas você me chamou.
(pausa)
2:
Tudo bem. Eu espero.
(pausa
longa)
Música:
Keith Jarrett, Book of ways, ECM 1344/45 831 396-2, CD1, 8a música. Como background.
Ao terminar, é repetida. Até 0’24”, descendo, ficando de background até dito em
contrário. Só tocá-la uma vez.
(relutando)
1:
Quantos anos, mesmo?
(pausa)
2:
Mais de vinte.
1:
Desde que eu me formei.
2:
Desde que todos foram embora.
1: E
eu fiquei.
2: E
você ficou.
(pausa)
1:
Será que eles se lembram?
3:
Lembram.
1:
Você tem encontrado eles por aí?
3:
Alguns.
1: (tentando
agradar) Eu encontrei uma delas.
(2
não faz nenhum gesto)
(pausa)
1:
Você não perguntou, mas ela parece bem.
(pausa)
1:
Outro dia, um deles.
(pausa)
1: Falando
difícil.
(pausa)
1:
Mas não me lembro muito bem dele, nem dos outros. (pequena pausa) Nem de
ninguém. Só flashes.
(pausa
mais longa)
2: Também,
foi você quem decidiu esquecer.
(pausa
mais longa)
1 (triste):
Foi.
(pausa)
1:
(tentando se alegrar) Lembra daquela editorazinha? Dia desses, vi ela no
jornal.
(pausa)
2:
(incisiva) Aquela, que você enganou.
(pausa)
1:
(assumindo o golpe, meio encabulado) É.
(pausa)
1
(contando para 2) Um dia, encontrei uma mulher que havia trabalhado comigo, mas
eu não me lembrava.
2:
Sei.
1: Ficamos
de nos ligar. Nunca mais. E olha que ela mora perto de casa.
2:
Sei.
(pausa)
1:
(triste) Ele mesmo, só daquela vez nas escadas.
(pausa)
1: Fiquei
apavorado. Saí correndo. Torcendo para que ele não tivesse me visto.
(pausa)
2:
Muito estranho, isso.
(pausa)
1:
Às vezes eu tomo banho fingindo que o tempo não passa, sabe?
2:
E...?
1:
Não, é que daquela vez eu fiz como se ele não tivesse me visto. Do mesmo jeito
como tomo banho. Fingindo, sabe.
2:
Ainda acho estranho. Afinal, é claro que ele te viu.
(pausa)
1:
Sei lá, acho que eu não consigo abordar os problemas de frente.
(pausa
mais longa)
1:
Fiquei sabendo da morte dele pela TV.
2:
Pois é.
(pausa
mais longa)
1:
Dia desses, passei em frente aonde ficava a editora.
2:
E...?
1:
Nada, não.
(pausa)
1: É
que por uns momentos acabei me lembrando. Só isso.
2:
Lembrando de quê?
1:
Sei lá, do prédio. Da rua, essas coisas.
2: E
das pessoas?
1:
Das pessoas? Muito de leve. Eu não me lembro. Ou não quero me lembrar.
2: Sei.
1:
(cabisbaixo) Machuca. Demais.
(pausa)
2:
Você fica com vergonha, é isso?
(pausa)
1: (baixo)
Acho que sim.
(pausa)
2:
Vergonha de quê, exatamente?
1:
Ah, sei lá.
2:
(esperando resposta)
1:
Ah, você sabe.
2:
Sei.
(pausa)
1:
(respondendo) Vergonha de ter desistido. Entregado os pontos.
(pausa
mais longa)
2:
Você fez o que podia.
1:
É.
2: E
até que você não se saiu tão mal.
(pausa)
1:
Lembra quando eu tirava xerox de tudo o que encontrava?
2:
Lembro.
1: Como
se assim eu pudesse entender.
2:
É.
1:
Mas do que eu tinha mesmo medo era de conversar.
(pausa)
1:As
pessoas me davam medo. Todas. Eu não sabia mais distinguir as coisas.
2:
Você consultou a psiquiatra, e ela te deu remédio para tomar.
1: É
verdade. Um pouco.
2:
Tentou fazer terapia.
1:
Tentei. Mas era caro demais. Parei no meio.
2:
Lembro.
(pausa)
1:
Mas tanto esforço não deu em nada. Afinal, não conseguia estudar.
2:
Entendo.
(pausa)
1:
Na família, então, eu não conseguia porra nenhuma. Fazia qualquer coisa, era
culpado de uma coisa ou outra.
2:
Sei.
1:
Então. (cabisbaixo)
2: É
doloroso lembrar, não é?
1:
É.
2:
Mas você até que se saiu bem.
1:
Como assim? Eu bati nele!
2:
Cá entre nós, ele precisava.
1:
Eu sei, mas eu bati. (pausa) Sabe, foi como se algo tivesse se rompido na hora.
2
(consolando): Agora isso não importa.
1:
(se afastando) Aí que você se engana.
(pausa
mais longa. nas disposições do começo da peça)
2:
Deixa eu só ver. Você diz que eles venceram.
1:
Foi.
2:
Quem, eles?
1:
Ah, eles, todo mundo. Quem mais?
2:
Mas como assim, todo mundo?
1:
Todo mundo. Todos que me rodeavam naquele tempo. Todos os que me rodeiam lá
onde eu trabalho. Todos os que de um jeito ou de outro conviveram comigo. Todo
mundo.
2:
(sorriso irônico) Você acredita MESMO nisso?
1:
Não depende de eu acreditar. Em todo lugar, eles acabam me rodeando e dominando
de alguma forma.
(pausa)
1: É
como lá onde eu trabalho.
(pausa)
1:
Falam comigo, depois falam com ela.
(pausa)
1:
Nunca acreditam em mim.
(pausa)
1: É
por isso que a culpa é de todos, sim, de todo mundo.
2:
Culpa por você ter sido derrotado. Dessa forma.
1: É
isso aí.
(pausa)
2:
Mas vem cá, você se lembra quando jogou tudo para o ar?
1:
Me recordo como se fosse hoje.
2:
Ninguém te obrigou a isso.
1:
Mas eu não conseguia estudar!
2:
Não conseguia ou não queria?
(pausa)
1:
Tá, não conseguia E às vezes eu não queria.
(pausa)
2: A
verdade é que você se fechou em copas. Não queria que ninguém te dissesse nada,
para bem ou para o mal. Você encalacrou que podia resolver tudo sozinho.
1:
Isso é verdade.
2:
Aí, quando as condições eram desfavoráveis, você simplesmente as culpava para
não assumir a responsabilidade. Por nada.
(pausa)
2:
Lembra aquele dia em que Ele te aconselhou?
(1
assente)
2:
Você simplesmente não deu a mínima.
(pausa)
1:
Ela sempre me obrigou a fazer as coisas como ELA queria.
2:
Tá.
1
(buscando assentimento): Eu TINHA que fazer as coisas como eu queria.
2:
Sei.
(pausa)
1:
Pelo menos ninguém tinha nada com isso. Não tinham que se meter, depois.
(pausa)
2:
Você não entende que as pessoas fazem acordos entre si, que elas combinam
coisas com os outros ou não. Que as pessoas vivem em sociedade. Não como você.
(pausa)
1:
Eu TENTO viver em sociedade.
2:
Tenta, como? Você só se fecha!
1:
Eu preciso me proteger!
2:
De quem, de todo mundo, de tua esposa, de tua mãe, de todo mundo?
1:
Eu não consigo mais acreditar em ninguém.
2:
Por isso, dá de achar que todos estão contra você.
(pausa)
1:
Todos conseguem trabalhar uns com os outros. Como eu não consigo (e olha que
tento), todo mundo acaba, mesmo sem querer, trabalhando contra mim. É isso.
2:
Não foi isso que te deixou nesta situação.
1
(assentindo): Isso, é.
(pausa)
2: Você
diz que ela vai te largar.
1:
Sim.
2: E
que não adianta fazer nada.
1:
Isso.
2:
Então, por que não você simplesmente É? Acredita, simplesmente?
1:
Por medo de ser mandado embora.
(pausa)
2:
Como lá? Foi você que fugiu.
1: Como
em todas as tentativas de criar laços sinceros com alguém.
2: Não
acredito nisso. Foi você quem sempre fugiu. Para não enfrentar as
conseqüências.
(pausa
longa)
1:
Pode ser.
2 se
levanta. Declama:
Quais
são as qualidades que fazem um homem?
Um
homem de verdade.
Não
um menino.
Há
quem recorra a religiões.
Outros,
a filosofias.
A
maioria apóia-se no bom senso.
Cada
um fica com sua verdade.
Ninguém
convence ninguém.
(pausa)
Os
deuses da Grécia dominavam os homens.
Não
havia esfera que eles não controlassem.
Marionetes
é o que eram os homens.
Os
deuses também lutavam entre si.
E
quem perdia eram sempre os homens.
Existe
uma palavra que define quem iria sofrer.
É a
chamada hybris.
A
arrogância, falta de medida.
Assunção
de poder.
Nada
pior – para deuses ou seres humanos.
Pois
somente os deuses tinham poder.
É
como pensavam os gregos.
(pausa)
Mas
os homens também têm suas leis.
Para
elas há toda uma série de instâncias.
Poderes.
Funcionários. Juízes.
São
eles que definem quem irá ser julgado culpado.
Ou
inocente.
(pausa)
Foi
por capricho que ele descumpriu uma delas.
E
por isso foi condenado.
Ousou
avançar onde não poderia.
Recebeu
a resposta.
Hoje
lamenta.
Se
ainda fosse pelos deuses, ele assentiria.
Mas
nos homens, nesses míseros homens,
ele
não bota a mais mínima fé.
Por
isso sofre.
(pausa)
Mas
ele não tem em quem botar a culpa,
a
não ser nele mesmo.
Por
isso ele sofre como se tudo tivesse sido apenas um sonho.
Música:
Discoteca do Chacrinha.
Ou
Música: Leonard Cohen, I can’t forget.
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