sábado, 25 de abril de 2015

Puteiro

Puteiro.
Seis putas.
Priscila. Loira, bonita, gostosa, com roupa abusada e gasta. Triste. Morta.
Silvia. Cabelo castanho/ruivo, 40 anos, boas ancas, graciosa, dança bem. Animada.
Emanuela. Alta, corpo forte, 35 anos, barraqueira, a líder das putas. Vestida de forma espalhafatosa.
Débora. Baixa, gostosinha, meio gordinha, boca suculenta, meio amarfanhada, alegre porque se prepara para mais um programa certo. É a única que faz anal (isso tem que ficar claro, mas aos poucos).
Raquel. Puta belíssima, mas enfeiada, destruída. Mas só por fora. Olhar com crença.
Samara. Puta menor de idade. Pálida, com medo ou querendo fugir. Vestida com certa discrição. Isolada.
Cézar faz Cézar. Japonês alto, com tendência à obesidade, voz tonitruante, com tendência a se comportar de forma espalhafatosa. Mas com criação tradicional, tendente a se controlar para manter uma aparência de que não se convence mais. 35 anos.
Gabriel faz Gabriel. Amigo de Cézar. Vestido com camiseta regata, short longo, casaco de couro rasgado. Zoado, tenta ser ouvidos de Cézar. Despreza a situação, mas gosta de estar no puteiro. Está zoado.
Priscila não está no palco. Entrará 1 min depois de a cena começar.
Silvia está no palco. Fazendo um café de coador, para no máximo dois copos.
Emanuela está olhando para fora de uma janela imaginária. De mau humor.
Débora está de costas, pintando as unhas. Está seminua.
Priscila entra saindo do lobby do bar, como se estivesse vindo de um quarto. Está meio amarfanhada. Roupa abusada, gasta, meio suja. Como se saísse de um programa com o Cézar (isso não tem que ficar ÓBVIO). A intenção é atiçar o instinto dos espectadores homens, do tipo “essa eu gostaria de comer”. Mas ela passa uma outra impressão: de morte, de mulher fantasma, inexistente enquanto vontade, vazia de passado, presente e futuro. Para contrapor a vontade de “comer” do público masculino com a constatação da ausência de vida da puta gostosa. Como se o que tivesse acontecido fosse de alguma forma indevido. Ela se comporta, no passo lânguido, como se não andasse na terra. Priscila anda de forma autômata, sem precisão contudo, lutando contra o poder da gravidade, jogando suas carnes à toa na vida, com olhar vazio e tênue, muito fraco, sem olhar para nada. Imersa num nada do qual não veio e para o qual não vai. Ela avança em 45 segundos cravados e dirige-se ao banheiro, do qual não sai rapidamente. Como se estivesse indo se lavar. Como se só houvesse esse banheiro no local. Lá, gritos de incômodo, agressivos, de putas lutando pelo espaço.
Cézar chega depois de Priscila.
Monólogo de Cézar.
(Se joga na primeira cadeira que encontra)
Foi bom. Foi bom! Foi bom, gostosa, foi bom! Ouviu?
Foi bom... (faz como se relembrasse. Mas está bêbado. Não parece se lembrar. Os sons aparecem ocos, como se não tivessem referencial. Como se não houvesse referente (ver o significado de referente em gramática – condição de enunciação, ambiente))
Mais uma! (grita)
(tempo)
Mais uma! (grita)
(menos tempo)
Mais uma, já disse! (grita mais alto)
(ninguém se mexe. Sequer para atende-lo, sequer para ouvi-lo, sequer para notar sua presença)
(bate na mesa)
Ei, aqui, ninguém me ouve, não? (grita muito alto)
(nenhuma reação, sequer silêncio – todas continuam fazendo o mesmo que faziam)
(ele para. Não se mexe.)
Foi bom...
(tempo)
Mais uma...
(tempo)
(Silvia faz que se aproxima. Toca-o muito de leve com a ponta de um dedo)
(Ele grita)
Não me toca!
(tempo)
Ah...
(ri, gargalha) (muito tempo)
Desculpa...
(tempo)
Mais uma! Mais uma! (grita)
(muito tempo)
(fala o texto, frio, sem aparentar estar bêbado. Lento, pausado, com respeito a si e ao outro)
Eu bati nela. E ela caiu. Eu tentei pegá-la. Não deu. Ela se foi. Eu também.
Sim, ela caiu. E eu também.
Ela falava muito. E eu gostava. Mas eu bebia. E bebia. E tentava. (tempo) Não sei o que eu tentava. (tempo)
Ela era vagabunda. E eu gostava. Ela dava para todos. E eu gostava. Ela falava. E eu gostava. Mas eu bebia. E tentava. Não sei o que eu tentava.
(bêbado)
Mais uma! (grita)
(mais tempo)
Ela queria algo de mim. Eu sabia que queria. Eu até apostei com eles. Ela queria algo de mim. E eu bebia. Porque queria. Claro, eu sempre quis. Eu nunca bebi sem querer. Eu tentava. Não sei...
(algum tempo) (bêbado, desesperado)
Eu quero mais uma! Eu quero mais uma! Mais uma!
(dá um pinote em si mesmo, afasta-se de onde estava)
Mas que foi bom, foi bom!
(Priscila volta. Do jeito que foi indicado)
(bastante tempo)
(ele diz para ela, suavemente)
Foi bom?
(bastante tempo)
(cantam a música, desconjuntadamente)
I hurt myself today
To see if I still feel
I focus on the pain
The only thing that's real
The needle tears a hole
The old familiar sting
Try to kill it all away
But I remember everything
What have I become
My sweetest friend
Everyone I know
goes away
In the end
And you could have it all
My empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt
I wear this crown of thorns
Upon my liar's chair
Full of broken thoughts
I cannot repair
Beneath the stains of time
The feelings disappears
You are someone else
I am still right here
What have I become
My sweetest friend
Everyone I know
goes away
In the end
And you could have it all
My empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt
If I could start again
A million miles away
I would keep myself
I would find a way

(ao final, se olham. Pontualmente. Voltam a ser o que eram)

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