Aos que ficam
(Rodrigo Contrera)
Platéia:
Disposta ao mesmo nível do palco, ao redor da cena.
Painel:
Painel de 4 algarismos, lado esquerdo do palco. Algarismos iluminados
em vermelho. Primeiro item que aparece, iluminado. Apresenta números em
diversas ordens crescentes. Exemplo: 1001, 6038, 9005, 1002, 9006, 9007, 4500,
6039, 1003, etc. Os números aparecem a cada 10 ou mais segundos (não seguem
padrão muito claro). Os números que aparecem estão no roteiro da peça e
continuam a aparecer mesmo após o fim das falas. A leitura dos números não
segue posição pré-definida no roteiro. Logo após qualquer número, uma porta se
abre ou se ilumina, ao fundo.
Números:
2009, 1001, 6038, 2010, 7211, 5432, 9005, 3056, 1002, 9006, 9007, 4500,
6039, 1003, 2011, 2012, 5433, 9008, 1004, 9009, 3057, 7212, 6040, 4501, 2013,
1005, 8632, 2014, 1006, 6041, 5434, 2015, 5435, 9010, 8633, 3058, 4502, 2016,
6042, 3059, 7213, 1007, 1008, 2017, 8634, 4503, 9011, 5436, 5437, 6043, 7214,
7215, 7216, 5438, 4504, 5439, 1009, 2018, 4505, 8635, 9012, 3060, 5440, 6044,
8636, 3061, 4506, 8637, 1010, 2019, etc.
Som/música:
Mixagem. Som de feira misturado a música de Anthony Braxton. O som de
feira aparece primeiro; a música entra após alguns segundos (20s, mais ou
menos). Música: Composition 69M, em Four Compositions (Quartet) 1983. Os
acordes do começo da música repetem-se mais duas vezes no seu decorrer. Sempre
que isso acontece, as falas/ações páram. O som de feira continua após o fim da
música e após as falas/ações dos personagens e desaparece suavemente.
Personagens/objetos:
Homem sem pernas (ou com pernas deformadas ou dobradas) sentado num
skate, com o qual ele se movimenta.
Homem/mulher de pé, com grande seta pendurada no pescoço. O
homem/mulher permanece o tempo todo cabisbaixo(a).
Mulher-segurança. Em pé no meio do palco. Vestida com roupa similar à
de segurança particular (calça marrom, blusa azul escura). Mexe apenas os
olhos, perscrutadores. Seu olhar cria constrangimento às personagens que se
movem ao seu redor.
Homem/mulher dormindo, na rua. Com blusa de grandes listras vermelhas
sobre branco, calça rústica e pés descalços, o homem/mulher esconde a cabeça na
blusa e dorme ou finge que dorme, mostrando respiração ofegante.
Vozes dos personagens/objetos:
Falam mas não parece que o fazem. Não há falas indicadas para um ou
outro: os atores decoram todos os textos. Quem quiser, os pronuncia. As falam
podem ser de um e do mesmo, em seqüência. As falas podem ser repetidas (um e
outro). Só não pode haver excesso de repetição.
Falas:
- A gente fica.
- Eles passam.
- O tempo passa, também.
- Olha aquele ali.
- Ele fica.
- Por enquanto, ele fica.
- E ela.
- Ela fica também.
- Depois ele vai.
- Ele passa.
- A gente fica.
- Dizem que quem vai permanece na lembrança.
- Não é bem assim.
- São muitos.
(tempo)
- Saiu na tevê que acharam os corpos.
- Eles se foram.
- Mas voltaram.
- Não voltaram. Acharam os corpos, apenas.
- Voltaram.
- Imaginou se não os achassem?
- A gente fica.
- Não é nada triste.
- É assim, simplesmente.
(tempo)
- Se esborracharam os dois.
- É chato falar assim.
- Foi o que aconteceu.
- Hoje ela sente falta da irmã.
- Eram muito apegadas.
- Foi na Anchieta. (rápido) Logo ali.
(tempo)
- (dramático) Queria ter lhe dado o meu adeus.
- Mas ele se foi sozinho.
- Todo mundo vai sozinho.
- É triste.
- Não é triste.
- É assim que é.
- Parece triste, mas não é.
(tempo)
- É curioso o que tem de gente que anda apressada por aí.
- Eles passam a toda velocidade.
- Correm contra o tempo.
- É a vida deles, em jogo.
- Um tempo precioso.
- A gente fica.
- O tempo tem outra dimensão para quem fica.
(tempo)
- Ele se foi.
- Faz tempo.
- Querem ressuscitá-lo o tempo todo.
- Mas ele morreu.
- Nós o matamos.
- Você e eu. Todos nós.
(tempo breve)
- Os humildes se ajoelham à sua passagem.
- Dizem: Graças a Ele.
- É o que dizem.
- Sentem a si mesmos o tempo todo escorregando.
- Realmente o tempo (pausa) escorre.
- Vocês ficam.
- Por enquanto vocês ficam.
- A gente, também.
(tempo)
- São muitos, todos.
- Uns aos outros, todos ligados.
- Um se vai, todos ficam sabendo.
- Um fica, diz Graças a Ele.
- Curioso.
- Se Ele se foi...
(tempo breve)
- Ele fica, sempre.
- Os outros é que se vão.
- Por isso ele Fica.
- Por mais que queiram dizer que não.
- Já a gente, a gente fica. Por enquanto.
(tempo)
- Bonita a imagem “castelos de areia”.
- Remete a praia. Ao mar.
- (lento) Os homens constróem castelos de areia.
(tempo breve)
- Muitos são necessários para decifrar as mensagens dos sábios.
- Muitos outros os seguem.
- Mas a isto aqui ninguém tem resposta.
- Falam dos que ficam, apenas. Não falam dos que se vão.
- Não falam daquilo que se vai com aqueles que se vão.
- Não falam da dor.
- A dor é indizível.
- (fala sussurrando) Essa foi difícil.
(tempo)
- Todo dia é um novo dia.
- Quem pode, aproveita.
- Quem não pode, corre atrás.
- Tem aqueles que ficam no mesmo lugar.
- Como nós.
- A gente sempre fica no mesmo lugar.
- Houve uma época em que não era assim.
- Houve uma época em que algo acontecia.
- Conosco. Com nossa vida.
- Um dia, tudo parou.
- A gente ficou.
- Por isso, a gente fica.
- É como se o tempo não passasse.
- Mas ele passa.
- A gente apenas não sofre mais com isso.
(tempo breve)
- Dói.
- Sim, dói.
- Dói sentir que o tempo não passa.
- Que a gente fica.
(tempo)
- Teve aquelas meninas.
- Lá na Suíça.
- O pai,aquele safado.
- Foi condenado.
- Penso comigo: e a vida, agora?
- Há vida depois da m...?
- A vida é questão de ângulo. De que ângulo você está.
(tempo)
- O mundo entrou em pandemia e ninguém reparou.
- A ficção tornou-se realidade e a vida continuou a mesma.
- O avião se partiu ao meio e todos continuam voando.
- Imaginou vê-los caindo?
- A eles? A elas?
- Hoje, tudo aparece e desaparece sem deixar vestígios.
- Pois muitos outros se engalfinham por um lugar ao sol.
- Ao sol que fica.
- Por isso tantos ficam. Como a gente.
(tempo)
- A gente, a gente fica.
- Mas, ao contrário do que diz aquele sábio, a gente não espera.
- Ninguém espera.
- A gente apenas fica.
- Apenas.
Todos:
- E tudo foi apenas um sonho.
Os personagens permanecem em cena. Cai a luz.
FIM
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