Minha contribuição ao Sarau "Esse lugar não existe..."
Nome da atração: Para quem não gosta de Carnaval
Autor: Rodrigo Contrera
Direção: Rodrigo Contrera
Elenco: Rodrigo Contrera
Duração aproximada: 15 min
Sinopse: Para que serve o
Carnaval? Por que render-se a ele? Por que, afinal, no Brasil o ano sempre
começa após a quarta-feira de cinzas? Homem cético e ensimesmado questiona-se e
aos poucos, enquanto reflete, percebe que o Carnaval existe para o próprio homem
ressurgir das cinzas. Inclui ao final apresentação de "Caprichos do
destino", de Pedro Caetano e Claudionor Cruz, em Carioca, de Stefano
Bollani.
Currículo resumido: Rodrigo
Contrera é jornalista e autor de peças curtas e performáticas para teatro. Obras
(apresentadas em 2008): "Somente uma pequena prova de amor" e "O
teatro é isso (Nascimento de um palhaço)", além de várias
peças-performances inéditas.
Para quem não gosta de Carnaval - pecinha-monólogo em 1 ato
Por Rodrigo Contrera
1 Homem
(Homem sozinho 1 entra no palco. Fala, em off)
Nem todo mundo gosta de Carnaval.
Eu, por exemplo, não gostava.
Nunca entendi o Carnaval.
Eu via só baixaria.
Ou gente se dando ao luxo de usar fantasia.
Luxo, sim. Porque na vida real é diferente.
Na vida real, as fantasias são reais.
(pausa)
O fato é que eu nunca entendi o Carnaval.
Por que tanto exagero?
Por que tanta felicidade?
Por que essa necessidade?
Nunca entendi.
Passava então os anos evitando esses dias.
Assistindo os desfiles pela televisão.
Descansando na segunda e na terça para trabalhar somente na quarta,
após o meio-dia.
Louco para trabalhar.
Acompanhando os dias e as noites de Carnaval todos de longe.
Ouvindo os comentaristas (sublinhando) comentarem o que eu não
entendia.
Folheando as revistas nas bancas.
Os destaques das escolas esbanjando saúde.
Atrizes, aspirantes a atrizes, atores também.
Enquanto isso, eu descansava. Sem entender nada.
(pausa longa)
Não posso negar.
Ando cansado de mim mesmo.
Não me aguento mais muito bem.
(pausa)
Para gente assim como eu, o Carnaval piora tudo.
A solidão aumenta demais.
Chega a ser pior que o Natal.
E olhem que o Natal não é fácil.
(pausa)
Eu queria entender o Carnaval.
Pois o Natal eu entendo.
Tanto que até gosto. Tanto que até curto. E sofro menos.
Nem sofro mais.
(pausa longa)
(música, baixa: Dio, This is your life. Segura caveira, como Hamlet)
O que somos todos nós?
Nada.
Mas somos alguma coisa.
Estamos aqui.
Juntos ou em separado, estamos aqui.
E o que é o universo?
Um cosmos vazio repleto de luzes.
O que somos todos nós, então?
Luzes. Pequenas luzes.
Agora, acesas. Daqui a alguns anos, nada.
Restos de vento.
Como a música diz: whispers in the wind.
Whisper. Sussurro.
Sendo assim, só nos resta brilhar.
Mostrar o que somos.
A que viemos.
Sem vergonha.
Sem medo.
(pausa longa, música em 1'21. "this is your life", aumenta, fade off em 1'46)
(fala sem cantar)
This is your life
This is your time
What if the flames
won't last forever
This is your here
This is your now
Let it be magical.
(1'43 a 1'46)
Pois é.
("Caprichos do destino", Pedro Caetano e Claudionor Cruz, em
Carioca, de Stefano Bollani)
Eu queria um lugar para mim.
Um lugar onde eu pudesse ser e descansar.
Mas descobri que esse lugar não existe.
Esse lugar está nos outros.
Está no reconhecimento que podemos ter nos outros.
Esse lugar é repleto de alegria.
Esse lugar está no sorriso de uma criança.
No sorriso do Pedrinho, o meu sobrinho.
Esse lugar está no sorriso da Cris quando vai ver o Pedrinho.
A Cris é minha esposa, que não veio.
O lugar de todos nós está no sorriso que podemos dar e proporcionar.
Esse é o nosso lugar.
Fingir que não ligamos para isso é como se fosse morrer.
Morrer para nós e para os outros.
Quero o Carnaval para mim.
O Carnaval de todos que seja o meu.
O Carnaval meu, que seja de todos.
E que este capricho do destino me obrigue a deixar o medo e abraçar o
amor.
Fim
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