Apenas uma nova prova de amor
Peça-monólogo
Personagem: C
Ato 1
(música 01 Bless the Lord, O
My Soul [Psalm 104], regida por Paul Hilier, até o fim. C aparece aos
poucos, especialmente após pouco menos de metade da música)
C
(mudo. não faz mímica)
Cheguei. Olha eu aqui.
(tempo)
Alguém me pôs aqui.
Alguém me disse: sobe lá e diz
alguma coisa.
Sobe lá. Ocupa o teu lugar. O TEU
lugar.
(tempo)
Eu me lembro.
Eu passava a minha vida onde
vocês estão.
Foram anos assistindo, engolindo
em seco e aplaudindo.
(lembra)
Uma vez eu saí no meio.
Só uma vez.
(tempo)
Dizem que é preciso coragem para
pisar este palco.
Qualquer palco.
É o risco do ridículo.
O medo de errar.
Ficar mal na fita.
(tempo)
Muitos ficam onde vocês estão
apenas por medo.
O mesmo medo de errar.
No fundo, eles gostariam de estar
aqui.
Eu sei.
(tempo)
Mas muitos de vocês jamais vão
pisar qualquer palco.
Por medo. Falta de oportunidade.
Vocês dizem que não, que não é
isso.
Que só vêm aqui se divertir.
(tempo)
Dizem que preferem ver. Assistir.
Pagam para que os outros os
divirtam.
(tempo. vira-se, fica de costas. toca 04 The sun will not strike you
by day (Salmo 121), até o 26s. retomado o off)
Ninguém pediu para eu vir aqui.
Eu mesmo quis.
(continua virado)
Eu sou o autor desta peça.
Estas palavras que vocês ouvem
fui eu que escrevi.
Nada demais.
(tempo)
É a segunda vez que escrevo uma
peça.
A primeira foi há alguns meses.
(aparece o vídeo, ao fundo. 05 Hear my prayer, O Lord, direto, suave, baixo)
Aquele cara lá atrás sou eu.
(tempo. a peça continua, dá para ouvir. passa algum tempo. torna-se
clara a intenção)
Era uma espécie de desabafo.
Comecei assim.
Eu estava lá na frente, vendo
tudo.
Morrendo de vontade de rir.
De estragar tudo.
(tempo)
O Nélson Rodrigues era fissurado
pelo buraco da fechadura.
Para mim o buraco é aqui.
(tempo)
Na frente de todos.
Para mim, é assim.
(tempo. deixa mais algum tempo aparecer a peça. abaixa aos poucos a
cabeça)
Ninguém viu.
Podem rir.
(levanta a cabeça. tempo)
Mentira. Foram uns amigos.
Uns amigos sempre vão.
Outros, nunca.
(pára a música. levanta-se)
(dirige-se à platéia)
(dirige-se a um homem da platéia, mais velho)
(o texto continua em off)
O sr. é meu amigo?
(se a pessoa faz menção de responder, o palhaço coloca o dedo em sua
boca, suavemente, ou faz o gesto de silêncio - mais fácil)
Está aqui porque é meu amigo?
(continua avançando em direção à platéia. dirige-se a outra pessoa)
Eu não me lembro de você.
Você é alguém?
É alguém importante?
(avança para outra pessoa)
Você me lembra uma pessoa.
Alguém. Não me lembro quem.
(olha uma pessoa no canto)
Sem você, minha vida seria
diferente.
(olha todos e ninguém)
(música The Sicilian Clan [-], de John Zorn, de The Big
Gundown, em >>> (rapidez))
(ao som dos poing, bolas caem em C, do nada. ele pega as bolas e tenta
se vingar. depois, ele entra na dança e dança olhando para todos. ao final, ele
vai embora, fugindo das bolas)
(fim do ato 1)
Ato 2
(música Köln Concert. Keith Jarrett. 01 Part I)
a
(joão hélio)
(palhaço carrega boneco destroçado, puxado por uma das pernas. precisa
ser feito com extremo bom-gosto e educação. ele carrega o boneco como se
estivesse carregando seus pecados. de vez em quando, ele volta-se para tentar
reanimar o boneco.)
b
(isabela)
(aparece o palhaço embaixo de um prédio. caem rosas em cima dele. as
rosas o distráem. impedem que ele durma. caem muitas e muitas rosas. afunda-se
em rosas. não consegue dormir. descansar. quando todas caem, formam sobre ele
um manto e ele descansa, por debaixo delas)
c
(menina estuprada em cadeia do pará)
(palhaço permanece num dos cantos do palco. no outro canto, um boneco
de menina. com cabeça abaixada. nua. machucada. ao longe, gritos. gritos e mais
gritos. o palhaço coloca os dedos nos ouvidos, não consegue aguentar. os sons
desaparecem, mas o palhaço continua ouvindo-os)
d
(menina torturada em apartamento de classe média)
(boneco de criança em meio a muitos, muitos bens pendurados. seus
braços estão presos. sua boca, amordaçada. o palhaço vê ela presa a essa
situação, mas, distante por um espelho de água, não pode fazer nada)
e
(menino destroçado por balas em carro no Rio)
(palhaço brinca com garoto pequeno, 3 anos no máximo, de jogar balinhas
um contra o outro. ao longe, sons extremamente fortes de tiroteio. sons
aumentam. os dois continuam brincando)
f
(garoto entregue a traficantes)
g
(menino desaparecido - geral)
h
(casal de namorados morto por garoto e caseiro)
Ato 3
(provisório)
(ele e o nariz, no centro do palco)
(o nariz fala)
- Você gosta de chamar a atenção, não é?
Sempre gostei. Desde os cinco anos.
Eu dançava na frente dos meus
tios. Eles riam e aplaudiam muito.
Eu devia me achar importante.
- Mas quando foi a primeira vez que você REALMENTE pisou no palco?
Foi numa peça. Eu disse um texto.
A platéia estava lotada.
- O que você sentiu na hora?
As luzes estavam todas em mim.
As pessoas não pareciam elas
mesmas.
Elas me olhavam.
Eu me sentia sendo dissecado.
Como se fosse um animal.
Como se eu estivesse sendo
testado.
Diga a verdade, as pessoas
pareciam pareciam dizer.
Voltei à coxia.
De repente entendi.
Até aquele momento eu havia sido
ninguém.
- Você gostou, então?
Adorei.
Pensei: este lugar é MEU.
Nunca tive um lugar meu.
Passei a adotar o palco para mim.
- Você passou a sonhar cada vez mais em estar aqui.
Sim.
- Mesmo que isso te obrigasse a ser ridículo.
Isso.
- Como um palhaço? (tom de zombaria)
Um palhaço não é ridículo.
(diz o texto acima em tom de lamento. pega o nariz. vira-se. coloca-o)
(música 04 Faixa 4 do CD Moods Reflections Moods, de Fábio
Caramuru)
(pega outra bola, deixada perto. começa a brincar com ela, sem se dar
muito bem com os movimentos que ela exige)
(exibição de cenas de vídeo, ao fundo. pequena tela, mas com muita
clareza. as cenas são simplesmente fatos. nada muito editado e que passe
mensagem clara. simplesmente fatos. é como se o vídeo substituísse a realidade,
e o palhaço, eu, estivesse como que passando o tempo, sem intenção definida,
enquanto tudo passa. a idéia - se é que existe - está em mostrar o papel do ser
humano particular nisso que é a realidade planetária dos dias de hoje: nenhum.
mas o palhaço não assiste, ele só brinca. brinca e tenta chamar a atenção. faz
número, tenta obrigar os espectadores a desviarem os olhos da tv. haverá um
momento em que o rodrigo, o autor, irá assistir às cenas. as cenas do vídeo terão
de ser exaustivamente editadas e devem ter a ver com meus recortes. pode, como
opção, ser exibido um ppt de minhas fotos e meus textos recortados)
(a partir de certo momento, voz em off)
Para que serve um palhaço?
Um palhaço não serve para nada.
O palhaço olha e engole.
Toma tudo para si.
Você não ri, ele se deixa afetar.
Fica chateado.
Abaixa a cabeça.
Você ri, o palhaço adora.
Se você grita com ele, ele chora.
O palhaço expressa fragilidade.
Ri e chora.
Grita e lamenta.
O palhaço é uma espécie de criança.
(tempo. tira o nariz. fica de costas)
O palhaço não está nem aí para o
mundo.
Como esse mundo aí.
Esse mundo que dói tanto.
Esse mundo tão difícil de
aceitar.
Mas nem por isso o palhaço é
ridículo.
Ridículo é aceitar e ficar
calado.
O palhaço não aceita.
O palhaço sabe chorar.
O palhaço ri.
Nós, não mais.
Nós vemos e ficamos calados.
Guardamos a dor com a gente.
Abraçados ao nosso rancor.
(homem que jaz em cima de uma mesa. não se mexe. está morto)
(mensagem no vídeo: "João Antônio, obrigado". as imagens
continuam)
(fim da música. as imagens continuam. o homem, eu, desapareço na
escuridão)
(tempo. fim do ato)
(música Köln Concert. Keith Jarrett. 03 Part III)
Exceto aqui no teatro.
Aqui não é lugar de bombas.
Aqui estamos todos juntos.
Vocês, com vocês.
Nós, conosco.
Vocês com a gente.
A gente com vocês.
Sim, é assim.
A todo momento, aqui, estamos
todos juntos.
Sempre foi assim.
O teatro é isso.
Ato 4
(Peteris Vasks - Dona
nobis pacem in Baltic Voices 1)
Não dá mais para viver só de
tristezas.
Ninguém agüenta.
Mas as bombas continuam.
(imagens de bombas)
Ah, se eu pudesse só lembrar do
amor.
De quando eu dançava na frente
dos meus tios.
Seria tão legal.
(tempo)
Mas sou um homem.
Não sou mais uma criança.
E a gente precisa acabar com
isso.
(surgem pessoas, que andam para lá e para cá, retomando a vida dura de
cada dia. a luz começa a desaparecer gradualmente, acentuando-se a queda a
partir de 6min30. em 7min10 nao há praticamente luz. espelho no palco, cobrindo
todo o palco, de lado a outro. começa a surgir luz na platéia a partir de 8min.
a luz aumenta gradativamente e em 9min15 torna-se forte o bastante para mostrar
a todos no grande espelho. em 10min20, os espelhos são desfeitos. surgindo um
grande corredor feito de espelhos no palco. em 11min10, a música praticamente
pára e nesse momento vem a expectativa quanto a o que vai surgir entre os
espelhos. pessoas da platéia entram aos poucos no palco e vão até o fim,
desaparecendo nas coxias. caso isso não aconteça, casal combinado ou um palhaço
entra no palco e avança, enquanto a luz cai)
(final 4 ato)
Créditos
(música: 09 Battle Hymn, de Judas Priest, em Painkiller. até o
fim. várias vezes. o texto a seguir é dito a partir da segunda vez) (créditos:
)
FIM
Nenhum comentário:
Postar um comentário