Somente uma
pequena prova de amor – Exposição em 4 atos
(Autoria: Rodrigo
Contrera)
cenário
(palco vazio. cadeira simples, de madeira, de espaldar
reto, no centro do palco. espelho no fundo do palco, de aproximadamente 1,5m de
altura, cobrindo praticamente lado a lado.)
sujeitos
(1: homem. não
muito alto, não muito baixo. magro, muito magro. camiseta listrada horizontal, mangas
curtas, de listras grossas de cor preta/branca. sentado numa cadeira de madeira
comum, com espaldar simples, reto, bem no centro do palco. olha para a platéia,
fixo. praticamente não se mexe. pernas paralelas, pés plantados no chão. praticamente
não mexe os braços, que contudo não permanecem presos à cadeira)
(2: voz. homem.
sem expressão, a não ser quando especificado)
(3: homem. de pé.
atrás de 1. não muito alto, não muito baixo. magro, muito magro. camiseta
listrada, mangas curtas, com listras não tão grossas quanto a camiseta de 1, de
cor vermelho/bege. o homem permanece imóvel durante todo o ato 1)
(4: homem. deitado/jogado
no fundo do palco, de bruços, com pés com meias brancas em direção à platéia.
camisa branca, calça preta. camisa fora da calça. imóvel durante os atos 1 e 2)
Ato 1
Som
(música: Fratres,
de Arvo Pärt. Tasmin Little
(violino) e Martin Roscoe (piano). Bournemouth Sinfonietta, por Richard Studt
(também violino II).
Luz
(escuridão. a
música começa, suave. mais ou menos em 0’20”, aparece uma luz suave, muito
suave, cuja função é apenas mostrar os contornos de 1. 2 permanece como se
fosse uma sombra viva. em 1’06”, com o som forte do piano, a luz estoura em 1,
a ponto de destruir suas feições para a platéia. com o decréscimo do tom do
piano, a luz desce um pouco, permanecendo ainda muito forte. a luz origina-se
de spots dos quatro lados de 1, todos direcionados a ele. em 1’53”, 1 começa a
falar)
1 (tom mediano. fala inexpressiva. conta como
se fossem fatos)
eles me roubaram o
11 de setembro.
hoje todo mundo
lembra das torres. eu me lembro das bombas, lá no chile.
disso, ninguém
lembra. mas lembram do pinochet.
(fade off repentino
da luz)
2 (sem luz, voz que surge de algum lugar, de
trás, dos alto-falantes, mas não de uma pessoa. tom inexpressivo, NÃO INQUISITÓRIO)
o que você estava
fazendo quando as torres caíram?
1 (a
luz forte reaparece de repente. tom inexpressivo)
dormindo,
desempregado. liguei a tv, vi aquele negócio em chamas. veio um avião, bateu,
ninguém falava nada. de repente, o negócio tremeu e caiu.
na hora eu ri. não
sei por quê.
(repentino fade
off da luz. segundos. a luz reaparece)
1
um dia, preocupado
com as coisas do mundo, fiz um trabalho imenso. só a introdução tinha 30
páginas.
era sobre falas
roubadas. sabe como é. eu não quero deixar você falar. finjo que falo por você.
ou seja, eu roubo você.
entreguei ao
professor, que me deu uma nota bem alta.
fui ver o que ele
havia escrito. tinham me roubado o trabalho.
(repentino fade
off da luz)
2 (tom inexpressivo. não me pena, nem de
troça)
uma pena.
(pausa)
2 (tom inexpressivo)
onde você estava
quando o ayrton senna morreu?
1 (a luz
reaparece de repente)
assistindo a um
campeonado de karatê. dava para ver que tinha algo errado. ninguém falou nada
na hora.
eu não gostava
muito do senna. mas foi difícil para todo mundo agüentar.
lembram quanta
piada surgiu logo em seguida? eram anticorpos. é verdade.
(pausa)
(fade off da luz. segundos,
poucos. a luz reaparece)
1
um dia, fiquei
sabendo de um garoto que se meteu com a guerrilha armada.
li, pesquisei,
entrei em contato com algumas pessoas e fiz um texto. apresentei num concurso e
não ganhei nada.
eu não queria
ganhar. queria que se lembrassem.
mas eles se
lembram da yara, do lamarca, marighella. gente importante.
queria que eles se
lembrassem dos ninguém.
não se lembram do
bacuri. não se lembram do massafumi.
eu lembro.
(repentino fade
off da luz. segundos. a luz reaparece)
2
do que é que você
foge?
1
não sei. não sei.
(pausa)
1
uma vez, fui num
fran's e encontrei um ex-colega de faculdade.
ele me disse: e o
pinochet, hein?
quis mandar ele à
merda. não mandei.
hoje, o cara
trabalha no governo lula, fazendo clipping.
encontrei o
sujeito há uns dois meses. e não é que o cara começou a fazer marketing do
governo na minha cara? pedi pra ele parar. ele parou.
o cara estava meio
acabadão. eu, não.
(fade off da luz)
2
onde é que você
tava quando começou a primeira guerra no Iraque, em 92?
1 (a luz
reaparece)
num hotel no
interior de são paulo, a serviço.
trabalhava numa
revista de assuntos rurais.
eu me lembro:
estava batendo uma punheta.
2
você não sabia o
que estava acontecendo?
1
que é você queria
que eu fizesse?
2
você me
decepciona.
1
pode ser, mas eu
falo a verdade. e é disso que vc gosta.
(luz desaparece. escuridão TOTAL)
1 (um pouco nervoso)
alguém aí na
platéia já ouviu uma bomba? uma bomba real.
eu consegui
reproduzir o som de uma. num baixo elétrico.
o resultado não é
bem um som. mas vai estar na minha peça.
2 (tom inexpressivo, mas muito claro. texto
mais importante de toda a peça)
ninguém liga pra
isso.
a história já se
foi.
quem morreu,
morreu, e quem não morreu, esqueceu.
1
eu sei. mas eu
ainda estou vivo. entendeu?
(pausa longa)
2 (a luz
reaparece)
onde é que você
estava quando estouraram aquelas bombas em londres e madri?
1
não tenho a menor
idéia.
(pausa)
mas eu lembro onde
eu estava quando mataram aquele brasileiro no metrô de londres.
eu estava
viajando, com a cris, no interior de são paulo.
comprei o jornal,
abaixei a cabeça, chorei um pouquinho e fui em frente.
2
entendo.
(fade off da luz.
segundos, intermináveis. a luz reaparece, menos forte)
1
eu queria chorar
por todos mas não tenho tanta lágrima assim.
e se eu ficar por
aí chorando à toa sei lá o que vão falar.
(baixo)
na minha infância
eles diziam que eu chorava porque era mariquinhas.
2 (impositivo)
deixa disso.
1
eu não consigo.
(pausa)
(texto mais importante da fala de 1. dito suavemente,
com calma, sem expressão, no limite da audição, sempre num tom mais baixo, realmente
forçando o público a ouvir. enquanto a fala transcorre, a luz diminui aos
poucos, no limite do visível. a música mantém-se no mesmo volume, mas decai por
ela mesma)
não estou só. eles
choram. eu também. mas agora eles se calam, e olham em outras direções. eles
pegam os celulares, enxugam as lágrimas, e se afastam. tem alguém aí? teve
alguém aí? não sei.
não estou só. eles
me olham atentos. querem algo em mim. querem algo que não sei se posso dar. eu
fico nervoso e provoco. eles reajem e me chamam de escroto. mas alguns tentam,
e eu também tento. com esses, o vai e vem se repete. com eles, não estou só.
queria vê-los à
minha frente, todos, nus, todas, nuas. mas não posso. eu mesmo não estou nu.
por isso, vejo-os lacrimejar, se mexerem, ansiosos. esperam que eu diga algo.
mas no fundo não quero. quero-os apenas aqui, comigo.
queria, como se
fosse eterno, deitar-me neles. colocar-me em seus braços, que me carregassem,
que carregassem minhas dores e minhas culpas. mas não posso. sou apenas um
homem. um homem que se deixa afetar, como eles, um homem que se deixa enganar,
como eles, um homem que engana e que mente, como eles.
por isso, me
afasto. como eles.
(a música continua, até o fim da música. sem luz. sem
fala. sem presença. sem nada)
Ato 2
(música: Cantos in Memory of Benjamin Britten, de Arvo
Pärt. Tasmin Little (violino) e Martin Roscoe (piano). Bournemouth
Sinfonietta, por Richard Studt (também violino II)).
2
(parado atrás de 1. escuridão completa. imobilidade
completa)
(a música começa. aparece uma luz suave no canto
esquerdo do palco (referência: platéia). a luz permite apenas divisar as formas
de 2. 2 principia a falar o texto a partir de 1’30”. tom inexpressivo, no
limite da não-audição. dirige-se à platéia, mas a ninguém)
Fugindo
eu consigo entrar e sair e sair e entrar. Fugindo eu posso ficar. Fugindo eu
posso ir embora. Quem foge não precisa ser aceito. Quem foge pode tudo.
(começa a andar, a passos lentos, aproximando-se do
lado esquerdo de 1, que está fumando)
Os
escravos fugiam em direção ao litoral. Quem não podia ficava no caminho e fazia
seu quilombo. Quem foge não pede remorsos. Quem foge olha pra frente. Quem teme
olha pra trás. Quem foge fala manso. Quem foge bate forte. Eu fujo porque não
tenho mais nada a perder. E sempre ganho porque só me resta fugir.
(mais forte) O
homem é livre e vive preso, diz Rousseau. Estou preso e vivo livre, digo eu.
Preso a mim mesmo, de quem não consigo fugir.
(aproxima-se da borda do palco. senta-se,
encarando os espectadores, um a um) (por volta de 2’34”, a música sobe, é
preciso fazê-la descer, de forma a não encobrir a fala)
Fico
no palco para fugir da platéia. Fico no palco sem ser ator. Fico no palco e
fico lá fora. Vocês me vêem agora e nunca mais. Pois quando me canso saio fora.
E quando vou embora não digo adeus. E quando volto não digo: ói eu aqui,
esperando um abraço. (levanta-se) Eu
vou e volto. E como posso tudo sentem que fico. E como posso tudo sentem que
vou. Um dia eu vou, para sempre. (anda
em direção ao fundo do palco. a luz esmaecida não incentiva que o acompanhem
com o olhar) Fujo sem parar adiantando esse dia, quem sabe. Fujo sem parar
para morrer e ressuscitar, quem sabe. Fujo quando calo, quando falo, quando
olho, quando viro o olhar. (pausa longa.
sem expressividade) Só queria mesmo um amigo.
(3’43”)
Mas os amigos aparecem quando eu fujo. Porque eu fujo de mim. E todo mundo foge. Todo mundo aceita quem não consegue fugir de si mesmo.
Mas os amigos aparecem quando eu fujo. Porque eu fujo de mim. E todo mundo foge. Todo mundo aceita quem não consegue fugir de si mesmo.
(desaparece no fundo do palco)
(a música continua até o fim, no palco e
platéia às escuras, com o nervosismo de mantê-la sem nada acontecendo. a partir
de 4’00”, aumenta o volume da música, reverberando os sons graves e médios,
atribuindo ainda mais gravidade à música. máximo de volume no sino final)
Ato 3
(música: Spiegel im Spiegel, de Arvo Pärt. Tasmin
Little (violino) e Martin Roscoe (piano). Bournemouth Sinfonietta, por
Richard Studt (também violino II)).
(escuridão. música começa. Luz forte à esquerda do
palco (referência: platéia). o corpo de 3 aparece com luz muitíssimo fraca. 1
permanece quieto, fumando)
3
(leitura a partir de 1’20”. sem expressividade.
pausadamente. até o fim)
eis-me então, nu,
como Você sempre quis e eu relutava, por medo. eis-me cansado de trilhar
atalhos sozinho, rumo a lugar algum. Você me tem agora, aqui, e apesar disso
ainda reluto. não sei mais se ando, se páro ou se me dirijo a algum lugar.
estou exausto e não consigo encontrar um cantinho sequer no mundo em que possa
descansar minha alma.
mas
agora tenho alma.
eis-me então,
totalmente à deriva, face à escolha de amar ou morrer. era aqui onde eu queria
chegar, mas eu não sabia. foi Você quem me obrigou a descobrir. aqui, em meio a
tantos que amam, e tantos que morrem por recusar-se a amar, nada mais existe. o
mundo continua girando, mas aqui isso não faz a menor diferença. nada que possa
vir a existir merece aqui qualquer atenção, se não vier por amor.
sei
disso agora. tenho amor.
eis-me aqui,
então, assoberbado de saberes inúteis, sem nada a não ser uma escolha. dar tudo
para nada querer, confiando em tudo poder merecer. mas sem que isso não dependa
de nós. aqui nenhum mérito pode me dar qualquer coisa. aqui, tudo é gratuito
mas nada é à toa. tudo que aparece some sem deixar rastro. quem não ama aqui
morre de inanição.
foi Você quem me
quis aqui. e só ficarei se Você permitir.
(música desaparece gradativamente, com o desaparecimento da luz)
Ato 4
(música: 01
01 Faixa 1, de Msa Glakolskaya, de Leos Janacek, extremamente forte)
(luz forte que inclui a platéia e os
sujeitos, apenas por um instante. 1 vira a cadeira face o espelho, sentando-se
frente a si mesmo. 3 vira-se para o outro lado de si mesmo. os movimentos,
extremamente rápidos, não chegam a se completar, quando a luz desaparece. fim)
Fim
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