O teatro é isso
Peça monólogo
Cenário: Sala de 7m x 4m, vazia. Cadeiras ao redor,
nas quatro paredes. Cadeira de costas, na parede lateral oposta à porta. Vela
nas costas da cadeira. Homem na cadeira, segurando um gravador, cabeça
abaixada, nariz de palhaço (que não dá para ver). Espectadores sentam-se nas cadeiras.
Não fica ninguém fora das cadeiras. A porta permanece aberta
Gravador ligado
Música ao fundo: 04, de Moods Reflections Moods, de
Fabio Caramuru, a partir de X
Texto (gravador):
Cheguei.
Olha eu aqui.
(tempo)
Alguém
me pôs aqui.
Alguém
me disse: sobe lá e diz alguma coisa.
Sobe
lá. Ocupa o teu lugar. O TEU lugar.
(tempo)
Eu
me lembro.
Eu
passava a minha vida onde vocês estão.
Foram
anos assistindo, agüentando, aplaudindo.
Às
vezes não.
(lembra)
Uma
vez eu saí no meio.
Só
uma vez.
(tempo)
Dizem
que é preciso coragem para pisar este palco.
Qualquer
palco.
É
o risco do ridículo.
O
medo de errar.
Ficar
mal na fita.
(tempo)
Muitos
ficam onde vocês estão apenas por medo.
O
mesmo medo de errar.
No
fundo, vocês gostariam de estar aqui.
Eu
sei.
(tempo)
Mas
muitos de vocês jamais vão pisar qualquer palco.
Por
medo. Falta de oportunidade.
Vocês
dizem que não, que não é isso.
Que
só vêm aqui se divertir.
(tempo)
Dizem
que preferem ver. Assistir.
Pagam
(ênfase) para que os outros os divirtam.
(tempo)
Ninguém
pediu para eu vir aqui.
Eu
mesmo quis.
(tempo)
Eu
sou o autor desta peça.
Estas
palavras que vocês ouvem fui eu que escrevi.
Nada
demais.
(tempo)
É
a segunda vez que escrevo uma peça.
A
primeira foi há alguns meses.
(tempo)
Aquela
primeira peça era uma espécie de desabafo.
Comecei
assim.
Eu
estava lá na frente, vendo tudo.
Morrendo
de vontade de rir.
De
estragar tudo.
(tempo)
Sabem,
o Nélson Rodrigues era fissurado pelo buraco da fechadura.
Pois
é.
Para
mim o buraco é aqui.
(tempo)
Na
frente de todos.
Para
mim, é assim.
(tempo)
Sabem
minha peça? Aquela? Ninguém viu.
Podem
rir.
(levanta a
cabeça. tempo)
Mentira.
Foram uns amigos.
Uns
amigos sempre vão.
Outros,
nunca.
(levanta-se.
deixa o gravador na cadeira)
(tempo
longo. suficiente para mostrar o rosto, o nariz, a face descorada, o semblante
vazio)(dirige-se à platéia)
(dirige-se a
um homem da platéia, mais velho)
(o texto
continua em off, música X)
O
sr. é meu amigo?
(se a pessoa
faz menção de responder, o palhaço coloca o dedo em sua boca, suavemente, ou
faz o gesto de silêncio - mais fácil)
Está
aqui porque é meu amigo?
(continua
avançando em direção à platéia. dirige-se a outra pessoa)
Eu
não me lembro de você.
Você
é alguém?
É
alguém importante?
Um
crítico?
Um
crítico não é alguém importante.
Claro.
Mas
eu preciso de gente importante.
Afinal,
eu quero ficar famoso, né.
Então,
você é alguém importante?
Não?
(avança para
outra pessoa)
Você
me lembra uma pessoa.
Alguém.
Não me lembro quem.
(o gesto de
dirigir-se repete-se muitas vezes, até abordar todos os espectadores. a música
X precisa terminar mais ou menos nesse momento, ou seja, em 4min05)
(volta-se ao centro da sala, cai, suave, como se
assumisse uma posição fetal)
Sabem,
sem vocês, minha vida seria diferente.
(o gravador
continua, em -)
(o homem
responde)
- Você gosta de chamar a atenção, não é?
Sempre
gostei. Desde os cinco anos.
Eu
dançava na frente dos meus tios. Eles riam e aplaudiam muito.
Eu
devia me achar importante.
- Mas quando foi a primeira vez que você
REALMENTE pisou no palco?
Foi
numa peça. Eu disse um texto. A platéia estava lotada.
- O que você sentiu na hora?
As
luzes estavam todas em mim.
As
pessoas não pareciam elas mesmas.
Elas
me olhavam.
Eu
me sentia sendo dissecado.
Como
se fosse um animal.
Como
se eu estivesse sendo testado.
Diga
a verdade, as pessoas pareciam pareciam dizer.
Voltei
à coxia.
De
repente entendi.
Até
aquele momento eu havia sido ninguém.
- Você gostou, então?
Adorei.
Pensei:
este lugar é MEU.
Nunca
tive um lugar meu.
Passei
a adotar o palco para mim.
- Você passou a sonhar cada vez mais em
estar aqui.
Sim.
- Mesmo que isso te obrigasse a ser
ridículo.
Isso.
- Como um palhaço? (tom de zombaria)
Um
palhaço não é ridículo.
(tempo
longo. homem com nariz de palhaço finalmente deita-se de costas e deixa-se
sentir. passa lentamente a contorcer-se de dor, como se estivesse acordando ou
nascendo. quando, após vários minutos, ele consegue engatinhar e encenar um
andar, o texto é retomado, também no gravador. enquanto o texto avança, o
palhaço começa a revelar seus passos, seus gestos, específicos)
(nova
música: 23, de Yoñlu. tempo, para encaixar a cena com a música)
Para
que serve um palhaço?
Um
palhaço não serve para nada.
O
palhaço olha e engole.
Toma
tudo para si.
Você
não ri, ele se deixa afetar.
Fica
chateado.
Abaixa
a cabeça.
Você
ri, o palhaço adora.
Se
você grita com ele, ele chora.
O
palhaço expressa fragilidade.
Ri
e chora.Grita e lamenta.
O
palhaço é uma espécie de criança.
(o palhaço
faz menção de sair da sala, sai aos poucos)
O
palhaço não está nem aí para o mundo.
Com
esse mundo aí.
Esse
mundo que dói tanto.
Esse
mundo tão difícil de aceitar.
Mas
nem por isso o palhaço é ridículo.
Ridículo
é aceitar e ficar calado.
O
palhaço não aceita.
O
palhaço sabe chorar.
O
palhaço ri.
(o palhaço
sai)
Nós,
não mais.
Nós
vemos e ficamos calados.
Guardamos
a dor com a gente.
Ficamos
abraçados ao nosso rancor.
(tempo. só a
vela como iluminação. música Yonlu, suave)
Exceto
aqui no teatro.
Aqui
estamos todos juntos.
Vocês,
com vocês.
Nós,
conosco.
Vocês
com a gente.
A
gente com vocês.
Sim,
é assim.
A
todo momento, aqui, estamos todos juntos.
Sempre
foi assim.
O
teatro é isso.
FIM
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