sexta-feira, 24 de abril de 2015

O teatro é isso - Peça monólogo

O teatro é isso
Peça monólogo
Cenário: Sala de 7m x 4m, vazia. Cadeiras ao redor, nas quatro paredes. Cadeira de costas, na parede lateral oposta à porta. Vela nas costas da cadeira. Homem na cadeira, segurando um gravador, cabeça abaixada, nariz de palhaço (que não dá para ver). Espectadores sentam-se nas cadeiras. Não fica ninguém fora das cadeiras. A porta permanece aberta
Gravador ligado
Música ao fundo: 04, de Moods Reflections Moods, de Fabio Caramuru, a partir de X
Texto (gravador):
Cheguei. Olha eu aqui.
(tempo)
Alguém me pôs aqui.
Alguém me disse: sobe lá e diz alguma coisa.
Sobe lá. Ocupa o teu lugar. O TEU lugar.
 (tempo)
Eu me lembro.
Eu passava a minha vida onde vocês estão.
Foram anos assistindo, agüentando, aplaudindo.
Às vezes não.
 (lembra)
Uma vez eu saí no meio.
Só uma vez.
 (tempo)
Dizem que é preciso coragem para pisar este palco.
Qualquer palco.
É o risco do ridículo.
O medo de errar.
Ficar mal na fita.
 (tempo)
Muitos ficam onde vocês estão apenas por medo.
O mesmo medo de errar.
No fundo, vocês gostariam de estar aqui.
Eu sei.
 (tempo)
Mas muitos de vocês jamais vão pisar qualquer palco.
Por medo. Falta de oportunidade.
Vocês dizem que não, que não é isso.
Que só vêm aqui se divertir.
 (tempo)
Dizem que preferem ver. Assistir.
Pagam (ênfase) para que os outros os divirtam.
 (tempo)
Ninguém pediu para eu vir aqui.
Eu mesmo quis.
 (tempo)
Eu sou o autor desta peça.
Estas palavras que vocês ouvem fui eu que escrevi.
Nada demais.
 (tempo)
É a segunda vez que escrevo uma peça.
A primeira foi há alguns meses.
 (tempo)
Aquela primeira peça era uma espécie de desabafo.
Comecei assim.
Eu estava lá na frente, vendo tudo.
Morrendo de vontade de rir.
De estragar tudo.
 (tempo)
Sabem, o Nélson Rodrigues era fissurado pelo buraco da fechadura.
Pois é.
Para mim o buraco é aqui.
 (tempo)
Na frente de todos.
Para mim, é assim.
 (tempo)
Sabem minha peça? Aquela? Ninguém viu.
Podem rir.
 (levanta a cabeça. tempo)
Mentira. Foram uns amigos.
Uns amigos sempre vão.
Outros, nunca.
 (levanta-se. deixa o gravador na cadeira)
 (tempo longo. suficiente para mostrar o rosto, o nariz, a face descorada, o semblante vazio)(dirige-se à platéia)
 (dirige-se a um homem da platéia, mais velho)
 (o texto continua em off, música X)
O sr. é meu amigo?
 (se a pessoa faz menção de responder, o palhaço coloca o dedo em sua boca, suavemente, ou faz o gesto de silêncio - mais fácil)
Está aqui porque é meu amigo?
 (continua avançando em direção à platéia. dirige-se a outra pessoa)
Eu não me lembro de você.
Você é alguém?
É alguém importante?
Um crítico?
Um crítico não é alguém importante.
Claro.
Mas eu preciso de gente importante.
Afinal, eu quero ficar famoso, né.
Então, você é alguém importante?
Não?
 (avança para outra pessoa)
Você me lembra uma pessoa.
Alguém. Não me lembro quem.
 (o gesto de dirigir-se repete-se muitas vezes, até abordar todos os espectadores. a música X precisa terminar mais ou menos nesse momento, ou seja, em 4min05)
(volta-se ao centro da sala, cai, suave, como se assumisse uma posição fetal)
Sabem, sem vocês, minha vida seria diferente.
 (o gravador continua, em -)
 (o homem responde)
- Você gosta de chamar a atenção, não é?
Sempre gostei. Desde os cinco anos.
Eu dançava na frente dos meus tios. Eles riam e aplaudiam muito.
Eu devia me achar importante.
- Mas quando foi a primeira vez que você REALMENTE pisou no palco?
Foi numa peça. Eu disse um texto. A platéia estava lotada.
- O que você sentiu na hora?
As luzes estavam todas em mim.
As pessoas não pareciam elas mesmas.
Elas me olhavam.
Eu me sentia sendo dissecado.
Como se fosse um animal.
Como se eu estivesse sendo testado.
Diga a verdade, as pessoas pareciam pareciam dizer.
Voltei à coxia.
De repente entendi.
Até aquele momento eu havia sido ninguém.
- Você gostou, então?
Adorei.
Pensei: este lugar é MEU.
Nunca tive um lugar meu.
Passei a adotar o palco para mim.
- Você passou a sonhar cada vez mais em estar aqui.
Sim.
- Mesmo que isso te obrigasse a ser ridículo.
Isso.
- Como um palhaço? (tom de zombaria)
Um palhaço não é ridículo.
 (tempo longo. homem com nariz de palhaço finalmente deita-se de costas e deixa-se sentir. passa lentamente a contorcer-se de dor, como se estivesse acordando ou nascendo. quando, após vários minutos, ele consegue engatinhar e encenar um andar, o texto é retomado, também no gravador. enquanto o texto avança, o palhaço começa a revelar seus passos, seus gestos, específicos)
 (nova música: 23, de Yoñlu. tempo, para encaixar a cena com a música)
Para que serve um palhaço?
Um palhaço não serve para nada.
O palhaço olha e engole.
Toma tudo para si.
Você não ri, ele se deixa afetar.
Fica chateado.
Abaixa a cabeça.
Você ri, o palhaço adora.
Se você grita com ele, ele chora.
O palhaço expressa fragilidade.
Ri e chora.Grita e lamenta.
O palhaço é uma espécie de criança.
 (o palhaço faz menção de sair da sala, sai aos poucos)
O palhaço não está nem aí para o mundo.
Com esse mundo aí.
Esse mundo que dói tanto.
Esse mundo tão difícil de aceitar.
Mas nem por isso o palhaço é ridículo.
Ridículo é aceitar e ficar calado.
O palhaço não aceita.
O palhaço sabe chorar.
O palhaço ri.
 (o palhaço sai)
Nós, não mais.
Nós vemos e ficamos calados.
Guardamos a dor com a gente.
Ficamos abraçados ao nosso rancor.
 (tempo. só a vela como iluminação. música Yonlu, suave)
Exceto aqui no teatro.
Aqui estamos todos juntos.
Vocês, com vocês.
Nós, conosco.
Vocês com a gente.
A gente com vocês.
Sim, é assim.
A todo momento, aqui, estamos todos juntos.
Sempre foi assim.
O teatro é isso.


FIM

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