sexta-feira, 24 de abril de 2015

O espelho

(Todos estes movimentos são imitativos. Ou no máximo o espelho existe)

Espelho. Mulher. Sai da cama e vai até ele.

Olha-se no espelho. Examina-se minuciosamente. Lava o rosto. Lava os dentes. Depila-se naquilo que é necessário. Observa-se em minuciosidade.

Sai.

Aparece numa mesa de cozinha. Lá está a irmã.

- Dormi muito pouco.

- Também. Não consegui pregar o olho.

- (olha para fora) O dia está lindo.

- (não olha para ela) Está mesmo.

- A mãe não acordou ainda?

- Acordou e deixou tudo pronto. Mas precisou sair para comprar pão.

- A essa hora?

- A padaria abre às sete.

- Devia ter mandado o Marcos.

- Alguém pegou o jornal?

- Não, ele tá logo ali.

- Ah.

- Você viu esse negócio dos peruanos?

- Vi.

- É uma vergonha.

- Como assim?

- Não sei o que esses nojentos vêm fazer aqui no Chile.

- Vêm trabalhar, ora.

- São uns sujos, nojentos. Dá nojo passar entre eles. Dizem que eles cagam nas ruas.

- Nunca vi isso. Você não tá confundindo com os bolivianos?

- Bolivianos, peruanos, tudo a mesma coisa. A mesma ralé.

- Nós descendemos deles.

- Sei!

- Mas é verdade. Veja nossos sobrenomes. Têm tudo a ver com eles.

- É diferente.

- Diferente, como?

- Ora, eles são eles, nós somos nós. Nós vivemos aqui, pagamos impostos, cuidamos de nossos filhos, que estudam normalmente, nossa vida não tem nada a ver com a deles.

- Qual nada. Eles trabalham, tá certo nem pagam impostos, mas cuidam dos filhos, ou não?

- Você não vê que os garotos estão sempre jogados por aí, pedindo esmola, enganando qualquer um?

- Não deixam de ser garotos.

- Deviam expulsar logo esses peruanos, bolivianos, sei lá.

- Você exagera.

- Mas vem cá, no que é que isto vai se tornar, hein? Um grande mercado persa? Só vendem bugigangas sem prestar contas a ninguém, jogam os filhos por aí, que por sua vez se tornam ladrões de mão cheia. Não pode sair nada de bom dessa gentalha. Você não liga?

- Até ligo. Me incomoda um pouco quando passo lá na praça central, mas só. Nada demais.

- É assim que funciona. Eles vão aos pouquinhos, bem aos pouquinhos, ganhando terreno. Depois pegam tudo para eles.

- Que exagero.

- Para você é fácil, loirinha, bonitinha, tudo o mais. Você tem tudo.

- Tenho culpa se nossos pais são diferentes?

- Claro que não. Mas eu sinto nojo desse povinho. Você não precisa se preocupar.

- A cor da pele é tão importante assim para você?

- (se olha no espelho) Claro que não. Até gosto da minha. É sensual.

- E então?

- Mas com eles é diferente, caramba! Eles estragam a paisagem, sujos, nojentos, fazem a gente crer que vive no meio de favelas.

- Claudia, nossos pais vieram de La Serena.

- Sim, mas trabalharam honestamente. Nunca precisaram se sujeitar a ficar na rua vendendo bobagens.

- Foi uma escolha deles. Nossa mãe teve sorte.

- Sorte, nada. Mérito. Mérito. E nosso pai nunca precisou abaixar a cabeça para andar na rua.

- Nem eles.

- Eles são é folgados, isso sim. Gentalha inútil.

- Claudia, que exagero.

- Exagero, nada. A vida é assim. Tem gente que presta e gente que não presta.

- E quem te diz que VOCÊ presta?

- Sou mãe de família. Sustento minhas crianças.

- Sei. Claudia, sinceramente, você já se olhou no espelho?

- Sim, e daí?

- Nada.


- A gente precisa se proteger. (retoca a maquiagem, tentando tirar algo onde não tem)

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