(Todos estes movimentos
são imitativos. Ou no máximo o espelho existe)
Espelho. Mulher. Sai da
cama e vai até ele.
Olha-se no espelho.
Examina-se minuciosamente. Lava o rosto. Lava os dentes. Depila-se naquilo que
é necessário. Observa-se em minuciosidade.
Sai.
Aparece numa mesa de
cozinha. Lá está a irmã.
- Dormi muito pouco.
- Também. Não consegui
pregar o olho.
- (olha para fora) O
dia está lindo.
- (não olha para ela)
Está mesmo.
- A mãe não acordou
ainda?
- Acordou e deixou tudo
pronto. Mas precisou sair para comprar pão.
- A essa hora?
- A padaria abre às
sete.
- Devia ter mandado o
Marcos.
- Alguém pegou o
jornal?
- Não, ele tá logo ali.
- Ah.
- Você viu esse negócio
dos peruanos?
- Vi.
- É uma vergonha.
- Como assim?
- Não sei o que esses
nojentos vêm fazer aqui no Chile.
- Vêm trabalhar, ora.
- São uns sujos,
nojentos. Dá nojo passar entre eles. Dizem que eles cagam nas ruas.
- Nunca vi isso. Você
não tá confundindo com os bolivianos?
- Bolivianos, peruanos,
tudo a mesma coisa. A mesma ralé.
- Nós descendemos
deles.
- Sei!
- Mas é verdade. Veja
nossos sobrenomes. Têm tudo a ver com eles.
- É diferente.
- Diferente, como?
- Ora, eles são eles,
nós somos nós. Nós vivemos aqui, pagamos impostos, cuidamos de nossos filhos,
que estudam normalmente, nossa vida não tem nada a ver com a deles.
- Qual nada. Eles
trabalham, tá certo nem pagam impostos, mas cuidam dos filhos, ou não?
- Você não vê que os
garotos estão sempre jogados por aí, pedindo esmola, enganando qualquer um?
- Não deixam de ser
garotos.
- Deviam expulsar logo
esses peruanos, bolivianos, sei lá.
- Você exagera.
- Mas vem cá, no que é
que isto vai se tornar, hein? Um grande mercado persa? Só vendem bugigangas sem
prestar contas a ninguém, jogam os filhos por aí, que por sua vez se tornam
ladrões de mão cheia. Não pode sair nada de bom dessa gentalha. Você não liga?
- Até ligo. Me incomoda
um pouco quando passo lá na praça central, mas só. Nada demais.
- É assim que funciona.
Eles vão aos pouquinhos, bem aos pouquinhos, ganhando terreno. Depois pegam
tudo para eles.
- Que exagero.
- Para você é fácil,
loirinha, bonitinha, tudo o mais. Você tem tudo.
- Tenho culpa se nossos
pais são diferentes?
- Claro que não. Mas eu
sinto nojo desse povinho. Você não precisa se preocupar.
- A cor da pele é tão
importante assim para você?
- (se olha no espelho)
Claro que não. Até gosto da minha. É sensual.
- E então?
- Mas com eles é
diferente, caramba! Eles estragam a paisagem, sujos, nojentos, fazem a gente
crer que vive no meio de favelas.
- Claudia, nossos pais
vieram de La Serena.
- Sim, mas trabalharam
honestamente. Nunca precisaram se sujeitar a ficar na rua vendendo bobagens.
- Foi uma escolha deles.
Nossa mãe teve sorte.
- Sorte, nada. Mérito.
Mérito. E nosso pai nunca precisou abaixar a cabeça para andar na rua.
- Nem eles.
- Eles são é folgados,
isso sim. Gentalha inútil.
- Claudia, que exagero.
- Exagero, nada. A vida
é assim. Tem gente que presta e gente que não presta.
- E quem te diz que
VOCÊ presta?
- Sou mãe de família.
Sustento minhas crianças.
- Sei. Claudia,
sinceramente, você já se olhou no espelho?
- Sim, e daí?
- Nada.
- A gente precisa se
proteger. (retoca a maquiagem, tentando tirar algo onde não tem)
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