sexta-feira, 24 de abril de 2015

Estamos todos juntos

Pois é, Luther.
Mando o texto agora.
É uma pequena peça, ainda inédita.
Se quiser, mando descritivo.
Como não foi apresentada, não temos fotos.
Quando for editá-la, SE forem editá-la, podem me contatar, se quiserem alguma ajuda.
No fundo, tem a ver com gente de rua, com todos esses montes de gente de rua. Fotos deles podem combinar.
abraço
Rodrigo Contrera
11 9132-5225
PS: se não quiserem ou não puderem publicá-la, tudo bem. basta avisar.

Todos estamos juntos (Rodrigo Contrera)

(Homem: Josuel. Vem do fundo do palco. Fica sentado no chão, bem no centro e à frente)

(Música: Dio, Losing my Insanity (CD Magika), até 30s, caindo)
Todo mundo nasce igual.
Uns, em berço de ouro.
Outros, no lixo.
(tempo)
Eu não me lembro bem.
As crianças não precisam lembrar.
(tempo)
Há mais ou menos um mês, eu encontrei um cara.
Ele me disse, sobe lá, no palco.
Depois ele perguntou, quer que eu faça uma peça para você?
Eu disse na hora que sim.
Por que não?
Então é isso aí. Tô aqui.
(tempo)
Ele é estreante, eu não.
Eu vendo revistas na rua.
Da Ocas. Aquela revista de sem teto. 1
Alguns de vocês já me viram por aí.
Se alguém quiser, pode comprar uma revista na saída.
Eu trouxe muitas (sorri).
(tempo)
Aqui 2 a gente não cobra ingresso pra peça.
Mas eu vivo da grana da revista.
Então, a gente junta o útil com o agradável, né.
Isso não é proibido.
(faz que pensa) Acho.
Enquanto não proíbem, a gente faz (sorri)
(tempo)
Eu já escrevi um livro.
Sou autor de livro.
Lá eu conto minha passagem pelas drogas.
(tempo)
Hoje tem um monte de livro assim por aí.
Mas cada passagem é diferente, então...
E por mais que a gente fale, sempre vai ter alguém errando por aí.
Se metendo com o que não deve.
(tempo)
Se quiserem, eu também vendo pra vocês meu livro, lá fora.
(tempo)
O sujeito que me deu esta peça uma vez me viu atuando.
Era uma cena do tipo teatro do oprimido. Do boal 3.
O diretor era lá de santo andré. Um sujeito legal.
A garota da cena vendia revistas na rua, e eu fazia um cara que tava com vontade de... sabe cumé. (sorri, malicioso)
A garota era a Pilar. Uma ex-colega.
Ela é gente boa, mas não tem disciplina.
(tempo)
Para fazer qualquer coisa, é preciso disciplina.
Sem disciplina, já era.
(tempo)
Depois de passar pelo inferno, agora eu começo a me entrosar com a sociedade.
Vendo revistas lá pra aquela galera do unibanco, do cinema, ou da faap. Ou lá do centro cultural itaú. 4
Cada vendedor tem seu ponto. Eu hoje tô lá no unibanco.
(tempo)
Bom, pra vender revista, tem todo um jeito.
Se eu não souber me aproximar, eu não vendo.
Tenho de aprender a ser mais simpático, tá sabendo?
(tempo)
Às vezes, não dá para tomar banho direito.
Claro que isso não ajuda.
Mas (como que constata) eu tô apenas vendendo revista.
(tempo)
Claro que aqui, como em qualquer lugar (ênfase), eu sirvo como uma espécie de objeto.
(tempo)
Explico.
O sujeito me ofereceu a peça, claro.
Mas há condições.
(tempo)
Eu preciso dizer o texto que ele fez, claro.
Este texto.
Mas ele também me deixou anunciar a revista, e o livro.
Foi um presentinho.
Na pior das hipóteses, eu vendo uns três de cada na saída.
Tá bom, né.
(tempo)
Até eu dizer este texto, eu não sabia muito bem o que ele queria.
Que eu subisse aqui e falasse o texto dele, que ele fez pra mim.
Mas agora eu acho que entendo.
(tempo)
Ele fez outra peça.
Ele só podia fazer uma. Tava proibido de fazer várias 5.
Ele me viu e pensou que comigo ele poderia dar mais um recado.
Legal.
Nada contra.
(tempo)
Mas por que eu?(dirige-se à platéia)
(dramaticidade, como aquela pergunta que as pessoas fazem quando acontece alguma tragédia)
Por que eu?
(tempo)
Repararam?
Eu exagerei um pouquinho no "por que eu?"
Ele, o autor, lembra sempre dessa pergunta.
Explico.
(tempo)
Quando algo acontece de ruim na vida de alguém, tem que ser algo bem ruim, a pessoa normalmente diz isso, cedo ou tarde.
Tipo:
Por que eu? (com jeito cômico, tirando sarro)
Por que eu? (ri) Por que eu? (ri)
Oh...(faz cara de palhaço)
(tempo)
Mas essas mesmas pessoas, quando encontram pessoas na rua, digamos mendigos, ou eu mesmo, não se perguntam isso, não.
Não perguntam "por que será que esse cara tá daquele jeito?"
Sei lá, fedendo, sei lá, vadiando, fazendo cara de vagabundo.
Ninguém pensa nisso.
(tempo)
O pessoal só pensa "por que eu?" quando se ferra.
E quando se ferra pensa que o outro pode se ferrar.
Pode tar ferrado.
Claro, quando a pessoa chega nesse ponto, já é tarde. (sorri)
Né?
Se eu ficar esperando por isso... já era.
(sorri)
(tempo)
Então:
Por que eu?(sorri)
Por que eu?(sorri)
(tempo)
Talvez eu esteja aqui porque, numa fase determinada da vida, eu tenha me ferrado.
E talvez ele – o autor – tenha certa simpatia com isso.
Por isso ele fez este texto.
Por isso me deixou falar.
Por isso me deixou fazer o que eu quisesse.
(tempo)
Pensando bem, (falando baixo agora, consigo mesmo) por que deus nos coloca aqui?
Não no palco.
Aqui neste mundo.
(tempo)
Eu - Josuel - não tenho essa dúvida.
Mas tá no texto (mexe as folhas, procurando e encontrando o trecho).
O sujeito que me passou a peça quer que eu diga isso.
Ele quer que eu fale sobre isso.
(tempo)
Eu sei que isso é chato.
Até parece que o palco virou púlpito.
E eu, apóstolo.
(tempo)
Isso aqui é apenas uma peça de teatro.
Ninguém quer dar lição pra ninguém.
Ninguém tá a fim de lição.
(tempo, bastante)
Um dia eu vou morrer, e você também.
Um dia nós vamos ser carregados, nosso corpo, vamos ser colocados em algum lugar.
Até lá, e ninguém sabe quando vai ser, a gente vive.
(tempo)
Todos estamos juntos.
Todos vivemos a mesma vida.
A questão é que os ângulos são diferentes.
(tempo)
Aqui, deste ângulo, eu sou o centro do universo.
Aí, do ângulo de vocês, eu sou um ator.
Não sou necessariamente um vendedor de revistas.
Não sou escritor de livro.
Não sou um cara que mora lá naquele canto onde eu me deito.
Lá no centro.
(tempo)
Sou um ator.
Sou um autor.
(murmura: lembram? do livro. sorri)
Sou o cara que hoje, como muitos outros, segura a responsa de fazer o teatro avançar.
(tempo)
Porque um dia a gente vai.
(tempo)
E o teatro (tempo) fica.
(tempo)
(Música: Nick Cave and the Bad Seeds, People ain't no good (CD The Boatman’s Call))

(problema: quando a música acaba? quando se dá a transição para a outra?)

Eu queria que o sujeito tivesse deixado que eu me mexesse um pouco.
Que eu dialogasse com alguém.
Que eu pudesse dizer algo meu.
Mas o espetáculo é dele. (aponta para cima)
E o artista (abre os braços e sorri amplamente) sou eu.
(tempo)
(afasta-se rumo ao fundo do palco)
Tudo bem.
(sai)
(lembra, de longe)
Mas não se esqueçam, tô aqui fora.

(as luzes se acendem)
(Música: Dio, Magica (Reprise))
Homem no centro do palco, totalmente de costas, com casaco preto, canta a letra, que foi distribuída aos espectadores.
(letra:
And the games still go on
E os jogos continuam
With a warning to the bishop from the pawn
Com um aviso de perigo do peão ao bispo
No one sees an angel till it smashes to the ground
Ninguém vê um anjo até que ele se esborracha no chão
And then you run somewhere
É quando você se afasta
And leave it lying there
E o deixa lá estirado
Then on we sail
Então continuamos navegando
Never thinking that the wind could ever fail
Sem pensar jamais que o vento possa nos faltar
No one gets to heaven till they've lived awhile in hell
Ninguém consegue o céu sem passar um tempo no inferno
And even then it's rare
E mesmo assim é raro
That you'll be going there
Que você consiga alcançá-lo
(Música termina, luzes se apagam ou homem se levanta e se afasta)

FIM

1 A Ocas – Saindo das ruas é uma revista mensal vendida na cidade de Sâo Paulo por sem teto que complementam suas rendas com parte do que conseguem recolher com a venda de exemplares da revista. Ocas significa Organização Civil de Ação Social. Mais informações: www.ocas.org.br
2 Esta peça foi originalmente escrita para o DramaMix, festival de peças curtas para teatro realizado em simultâneo às Satyrianas, evento que congrega espetáculos de diversos tipos, todo ano, no centro de São Paulo.
3 Augusto Boal, dramaturgo brasileiro, falecido em 2009. Idealizador, dentre outras iniciativas, do Teatro do Oprimido.
4 Unibanco: Espaço Cultural Unibanco, localizado na Rua Augusta. FAAP: Fundação Armando Álvares Penteado, localizada no bairro do Pacaembu. Centro Cultural Itaú: localizado na Avenida Paulista.

5 Até 2008, o DramaMix permitia que cada novo autor apresentasse apenas uma peça. O autor desta peça, também convidado, queria romper com essa regra. E com outras. Não conseguiu (o Josuel não apareceu).

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